Efésios 3 — O mistério revelado, a igreja reconciliada e a plenitude de Deus
Como o evangelho forma uma nova humanidade, confronta nossos modelos de igreja e conduz o povo de Deus à plenitude de Cristo
1. Introdução: da morte para a vida, da separação para a nova humanidade
Efésios 3 encerra a primeira grande parte da carta. Nos capítulos anteriores, Paulo apresentou o propósito eterno de Deus, a eleição em Cristo, a adoção, a redenção pelo sangue, o selo do Espírito e a supremacia do Cristo ressuscitado sobre toda autoridade e poder.
Em Efésios 2, o apóstolo descreveu a condição desesperadora da humanidade: mortos em delitos e pecados, escravizados pelo curso deste mundo, pela carne e pelo príncipe da potestade do ar. Então surgiram duas das palavras mais poderosas da carta: “Mas Deus”.
Deus vivificou os mortos, ressuscitou-os com Cristo e os salvou pela graça. Contudo, a salvação apresentada por Paulo não termina na experiência individual. O mesmo sangue que reconcilia pecadores com Deus também derruba o muro de hostilidade entre judeus e gentios.
Cristo não apenas perdoa pessoas isoladamente. Ele cria, dos dois povos, uma nova humanidade, reconcilia ambos em um só corpo e os transforma em concidadãos dos santos, membros da família de Deus e pedras vivas de um templo habitado pelo Espírito.
É precisamente nesse ponto que começa Efésios 3.
O apóstolo agora explica que a nova humanidade não foi uma resposta improvisada a uma crise social. Ela fazia parte do propósito eterno de Deus. Paulo chama esse propósito de mistério: uma realidade anteriormente oculta, agora revelada em Cristo.
O capítulo desenvolve-se em dois grandes movimentos:
Efésios 3.1–13: o mistério revelado e o ministério de Paulo;
Efésios 3.14–21: a oração para que a igreja experimente aquilo que Deus revelou.
Os dois movimentos não podem ser separados. Paulo não deseja apenas que a igreja conheça intelectualmente o mistério. Ele ora para que essa verdade penetre o coração, transforme os relacionamentos, fortaleça o homem interior e encha a comunidade da plenitude de Deus.
Hendriksen apresenta Efésios 3 como a “luminosa meta” da primeira parte da carta: por meio da igreja, a sabedoria multiforme de Deus torna-se conhecida nos lugares celestiais, enquanto os santos avançam em direção à compreensão do amor de Cristo e à plenitude de Deus (HENDRIKSEN, 2013).
2. Efésios 3 na progressão da carta
A carta aos Efésios possui um movimento claro.
Nos capítulos 1–3, Paulo apresenta o que Deus fez em Cristo. Nos capítulos 4–6, mostra como o povo alcançado por essa graça deve viver.
Essa divisão não separa doutrina e prática como se fossem realidades independentes. Ao contrário, demonstra que a vida cristã nasce da obra de Deus. O imperativo da vida santa vem depois do indicativo da graça.
Efésios 1 apresenta o fundamento eterno da igreja. Deus escolheu seu povo em Cristo antes da fundação do mundo, predestinou-o para adoção, redimiu-o pelo sangue do Filho e selou-o com o Espírito Santo.
Efésios 2 apresenta a realização histórica dessa salvação. Os mortos são vivificados, os distantes são aproximados e os inimigos são transformados em um novo povo.
Efésios 3 apresenta a revelação do mistério e sua dimensão cósmica. Aquilo que Deus realizou em Cristo deve agora ser anunciado, vivido pela igreja e contemplado pelos poderes nos lugares celestiais.
Depois disso, Efésios 4 começa com um “portanto”:
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (Ef 4.1).
A nova vida descrita nos capítulos 4–6 é a forma prática da nova humanidade criada nos capítulos 1–3.
3. A estrutura de Efésios 3
A organização do capítulo pode ser apresentada da seguinte maneira:
3.1 Efésios 3.1–13 — O mistério revelado
3.1–3: Paulo, prisioneiro de Cristo e administrador da graça;
3.4–6: o conteúdo do mistério;
3.7–9: o ministério de anunciar as insondáveis riquezas de Cristo;
3.10–12: a igreja e o propósito cósmico de Deus;
3.13: o sofrimento de Paulo e a glória dos gentios.
3.2 Efésios 3.14–21 — A oração pela plenitude
3.14–15: Paulo dobra os joelhos diante do Pai;
3.16: fortalecimento pelo Espírito no homem interior;
3.17: habitação de Cristo nos corações;
3.17–18: enraizamento e fundamento em amor;
3.18–19: compreensão comunitária do amor de Cristo;
3.19: plenitude de Deus;
3.20–21: doxologia ao Deus que faz infinitamente mais.
PARTE I — O MISTÉRIO REVELADO
4. Uma oração interrompida pelo mistério — Efésios 3.1
“Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios...”
A expressão “por esta causa”, tradução de dia touto, conecta Efésios 3 diretamente ao final do capítulo anterior.
Por causa da reconciliação realizada por Cristo, da formação da nova humanidade e da construção do templo habitado pelo Espírito, Paulo começa a orar.
Entretanto, a oração é interrompida.
Ao mencionar os gentios, o apóstolo abre uma longa digressão sobre o mistério que lhe foi revelado e sobre sua missão de anunciá-lo. Somente no versículo 14 ele retoma a expressão:
“Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai.”
Essa interrupção não representa desorganização. A menção dos gentios desperta em Paulo a necessidade de explicar por que ele, um judeu formado na tradição farisaica, está preso por proclamar a plena inclusão deles no povo de Deus.
4.1 Prisioneiro de Cristo, não apenas de Roma
Paulo se apresenta como desmios Christou Iēsou, “prisioneiro de Cristo Jesus”.
Humanamente, era prisioneiro do Império Romano. Teologicamente, porém, interpretava suas correntes a partir do senhorio de Cristo.
Roma podia determinar o lugar em que Paulo estava fisicamente, mas não podia determinar o significado de sua vida. O apóstolo não se via primeiramente como vítima do império, mas como servo de Cristo dentro da providência de Deus.
Sua prisão estava diretamente relacionada ao ministério entre os gentios. A proclamação de que eles poderiam entrar no povo de Deus pela fé em Cristo, sem se tornarem judeus e sem ocuparem uma posição inferior, provocou forte oposição.
Há aqui uma verdade pastoral indispensável:
A fidelidade pode produzir sofrimento sem que o sofrimento seja evidência do abandono de Deus.
Nem toda prisão significa derrota. Nem toda oposição prova que saímos da vontade divina. Nem toda perda ministerial é resultado de infidelidade.
Há momentos em que sofremos justamente porque permanecemos fiéis ao evangelho.
Paulo não permite que suas correntes definam sua identidade. Ele pertence a Cristo e sofre em favor de pessoas que, anteriormente, estavam longe das alianças da promessa.
5. A administração da graça — Efésios 3.2–3
Paulo declara que recebeu a “administração da graça de Deus” em benefício dos gentios.
A expressão grega é oikonomia tēs charitos.
A palavra oikonomia, da qual deriva “economia”, originalmente descrevia a administração de uma casa, propriedade ou responsabilidade. No Novo Testamento, mantém a ideia de mordomia: algo foi confiado a alguém para que seja corretamente administrado (HENDRIKSEN, 2013).
Paulo não considera o apostolado um título de honra destinado a elevá-lo acima dos demais. Ele o entende como uma responsabilidade recebida da graça.
Deus lhe concedeu graça para que ele a administrasse em favor de outras pessoas.
Isso transforma nossa compreensão do ministério.
O pastor não é proprietário da igreja. O professor não é dono do conhecimento. O discipulador não é dono do discípulo. O líder não recebeu autoridade para construir um império pessoal.
Todo dom é graça recebida para ser transformada em serviço.
A pergunta cristã não deve ser apenas:
“Que dom Deus me deu?”
Precisamos perguntar também:
“Para o benefício de quem Deus me confiou essa graça?”
O ministério torna-se doentio quando o dom que deveria servir aos outros passa a alimentar a vaidade de quem o recebeu.
Paulo não usa a revelação para criar uma elite espiritual. Ele a utiliza para anunciar o evangelho aos que haviam sido mantidos à distância.
6. O significado bíblico de “mistério”
Paulo afirma que o mistério lhe foi dado a conhecer por revelação.
A palavra grega é mysterion. No uso moderno, “mistério” costuma significar algo confuso, indecifrável ou permanentemente desconhecido.
No pensamento paulino, porém, o termo descreve uma verdade que esteve oculta nos propósitos de Deus, mas que agora foi revelada.
O mistério não é uma charada que apenas pessoas intelectualmente superiores conseguem resolver. Tampouco é um segredo reservado a uma elite religiosa.
É uma verdade que nenhum ser humano poderia descobrir sozinho, mas que Deus decidiu tornar conhecida.
O termo aparece em pontos estratégicos de Efésios:
o mistério da vontade de Deus, em Efésios 1.9;
o mistério de Cristo, em Efésios 3.3–4;
a administração do mistério, em Efésios 3.9;
o mistério de Cristo e da igreja, em Efésios 5.32;
o mistério do evangelho, em Efésios 6.19.
O tema atravessa a carta: Deus revelou em Cristo seu propósito de reunir todas as coisas sob o senhorio do Filho e formar um povo reconciliado.
6.1 O ambiente religioso de Éfeso
Éfeso era conhecida pelo culto a Ártemis, pelas práticas mágicas, pelo pluralismo religioso e pela presença de diferentes formas de religiosidade greco-romana.
É possível que a linguagem de “mistério”, revelação, iluminação e conhecimento também ressoasse no ambiente religioso da Ásia Menor. Os cultos de mistério ofereciam conhecimentos e experiências reservados aos iniciados.
Essa relação, porém, deve ser apresentada com prudência. A compreensão paulina do mistério nasce principalmente da história bíblica da revelação e do propósito de Deus. O contexto religioso pode ter fornecido uma linguagem conhecida aos leitores, mas Paulo a preenche com conteúdo radicalmente diferente (LONG, 2016).
Nos cultos secretos, o iniciado recebia acesso a algo negado aos que estavam fora. No evangelho, o mistério é proclamado publicamente às nações.
Não é um mistério que separa iniciados e ignorantes. É um mistério que aproxima os distantes e transforma estrangeiros em família.
7. O que estava oculto e agora foi revelado — Efésios 3.4–6
Paulo define claramente o conteúdo do mistério:
“Os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef 3.6).
O Antigo Testamento já ensinava que as nações seriam abençoadas por meio da descendência de Abraão. Os salmos e os profetas anunciavam que os povos viriam adorar o Deus de Israel.
Portanto, a novidade não era simplesmente que gentios seriam salvos.
O aspecto anteriormente oculto, agora manifestado com plena clareza, era que judeus e gentios seriam recebidos em absoluta igualdade, formando um único corpo, sem que os gentios precisassem primeiramente tornar-se judeus.
Paulo expressa essa verdade por meio de três palavras compostas com o prefixo grego syn, que significa “com”, “junto” ou “juntamente”.
No texto grego, as três expressões encontram-se em paralelo:
synklēronoma — coerdeiros;
syssōma — membros do mesmo corpo;
symmetocha — coparticipantes.
A repetição do prefixo reforça a nova realidade: ninguém recebe a graça separadamente como se pertencesse a uma categoria inferior. Judeus e gentios recebem juntos.
8. Coerdeiros: a mesma herança
A primeira palavra é synklēronoma, derivada de synklēronomos: “coerdeiro”.
Os gentios não recebem uma herança secundária. Não lhes é concedido um espaço inferior no reino de Deus.
Eles participam da mesma herança dos crentes judeus.
A herança inclui tudo o que Deus prometeu realizar em Cristo: vida eterna, adoção, ressurreição, participação no reino e comunhão definitiva com Deus.
Não há uma herança principal para um povo e uma herança menor para outro.
Em Cristo, a origem étnica, a posição social, a nacionalidade e a trajetória religiosa não determinam o valor de uma pessoa diante de Deus.
Isso destrói toda forma de orgulho espiritual.
Quem foi recebido pela graça não pode usar sua história, cultura ou tradição para humilhar outro pecador igualmente recebido pela graça.
8.1 Aplicação pastoral
Uma igreja que realmente crê nessa doutrina não produz cristãos de primeira e segunda classe.
O recém-convertido não é menos filho. O pobre não é menos herdeiro. O estrangeiro não ocupa um espaço espiritual inferior. O membro sem formação acadêmica não recebe uma parcela menor da promessa.
Todos os que estão em Cristo compartilham a mesma esperança.
9. Membros do mesmo corpo: uma unidade orgânica
A segunda palavra é syssōma.
Trata-se de uma expressão rara, formada pela junção de syn, “com”, e sōma, “corpo”. Paulo não diz apenas que judeus e gentios frequentam a mesma reunião. Afirma que pertencem ao mesmo corpo.
A imagem do corpo ultrapassa a ideia de convivência pacífica.
Ela implica:
pertencimento;
interdependência;
dignidade;
participação;
cuidado mútuo;
responsabilidade compartilhada.
Um membro do corpo não pode dizer ao outro: “Não preciso de você”.
Também não pode tratá-lo apenas como mão de obra, objeto de assistência ou instrumento para melhorar a imagem institucional da igreja.
A diversidade cristã não consiste apenas na presença de pessoas diferentes no mesmo auditório. Consiste na participação real dessas pessoas na vida, no serviço, na comunhão, na tomada de decisões e na missão da comunidade.
9.1 Presença não é o mesmo que pertencimento
Uma igreja pode ter pessoas de diferentes origens em suas reuniões e, ainda assim, continuar organizada segundo os valores de apenas um grupo.
Precisamos perguntar:
Quem pode ensinar?
Quem participa das decisões?
Quem é ouvido?
Quem pode liderar?
Quem é considerado modelo de maturidade?
Que cultura é tratada como normal?
Quem precisa abandonar sua maneira de falar, vestir ou expressar-se para ser plenamente aceito?
A unidade do corpo não exige uniformidade cultural. Judeus não precisaram deixar de ser judeus, e gentios não precisaram tornar-se judeus.
O evangelho não apaga as diferenças. Ele destrói as hierarquias de valor construídas sobre elas.
10. Coparticipantes da promessa: a mesma graça em Cristo
A terceira expressão é symmetocha tēs epangelias: “coparticipantes da promessa”.
A promessa feita por Deus a Abraão encontra seu cumprimento em Cristo:
“Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3).
Os gentios não são meros espectadores do plano de Deus. Eles participam da promessa messiânica por meio do evangelho.
As três expressões apresentam dimensões complementares:
Coerdeiros: compartilham o mesmo futuro;
Membros do mesmo corpo: compartilham a mesma vida;
Coparticipantes da promessa: compartilham a mesma graça em Cristo.
O evangelho não apenas salva indivíduos que depois decidem se desejam ou não viver em comunhão.
Deus salva pecadores e os incorpora a um povo.
A salvação possui uma dimensão pessoal, mas nunca é individualista. Somos reconciliados com Deus e, por isso, introduzidos numa comunidade de reconciliados.
11. Um evangelho que não produz pessoas de segunda classe
A igreja local deveria ser o espaço no qual as classificações usadas pelo mundo para determinar o valor das pessoas perdem sua autoridade.
Isso não significa que toda diferença desapareça. Continuamos trazendo histórias, culturas, línguas, experiências, dons e fragilidades distintas.
A unidade cristã não é a destruição da identidade cultural. É a submissão de todas as identidades ao senhorio de Cristo.
Nenhuma cultura pode tornar-se a medida absoluta da maturidade cristã.
Nenhum povo possui acesso privilegiado ao Pai. Nenhuma classe social representa mais perfeitamente o corpo de Cristo. Nenhum estilo musical, maneira de vestir ou vocabulário humano pode ser transformado em condição para a comunhão com Deus.
A igreja contradiz o mistério quando acolhe pessoas diferentes apenas sob a condição de que adotem integralmente a cultura do grupo dominante.
Também o contradiz quando recebe os vulneráveis como beneficiários de projetos, mas nunca como participantes da missão, do ensino ou das decisões.
A questão não é apenas quem está presente no culto.
A questão é quem pertence.
12. O menor dos santos e as insondáveis riquezas de Cristo — Efésios 3.7–8
Paulo afirma que foi feito ministro segundo o dom da graça de Deus e conforme a operação do poder divino.
Sua ênfase não está em sua capacidade pessoal, mas na graça que o alcançou.
Ele se descreve como “o menor de todos os santos”. A expressão grega, derivada de elachistos, é intensamente humilde. Paulo parece criar uma forma comparativa ainda mais forte: algo como “menor do que o menor”.
Essa não é falsa modéstia.
O apóstolo nunca se esqueceu de que havia perseguido a igreja. Entretanto, a memória de seu pecado não o paralisava. Ela aprofundava sua admiração pela graça.
A graça não apenas perdoou um perseguidor. Transformou-o em pregador.
O homem que tentara destruir a igreja tornou-se instrumento para sua edificação.
O verdadeiro ministro não precisa esconder sua dependência. Ele sabe que não é a fonte da mensagem. É um pecador alcançado que anuncia riquezas que não lhe pertencem.
12.1 As insondáveis riquezas de Cristo
Paulo recebeu a graça de anunciar “as insondáveis riquezas de Cristo”.
A expressão grega é to anexichniaston ploutos tou Christou.
O adjetivo anexichniastos descreve algo que não pode ser completamente rastreado ou explorado até o fim.
As riquezas de Cristo são inesgotáveis.
Cristo é suficiente para:
perdoar o culpado;
receber o estrangeiro;
reconciliar inimigos;
formar uma nova humanidade;
sustentar o sofredor;
fortalecer o homem interior;
conduzir a igreja à plenitude de Deus.
A igreja empobrece quando sua mensagem é dominada por técnicas, celebridades, projetos pessoais, promessas de prosperidade ou disputas políticas, enquanto as riquezas de Cristo são colocadas à margem.
Paulo não foi enviado para anunciar seu método. Foi enviado para anunciar Cristo.
13. Iluminar a administração do mistério — Efésios 3.9
Além de evangelizar os gentios, Paulo recebeu a missão de “manifestar” ou “iluminar” a administração do mistério.
O verbo é photisai, relacionado à ideia de trazer à luz.
O ministério apostólico possuía, portanto, um movimento duplo:
anunciar as insondáveis riquezas de Cristo;
esclarecer como o propósito eterno de Deus estava sendo realizado na igreja.
Evangelização e ensino não devem ser separados.
A igreja não foi chamada apenas para levar pessoas a uma decisão inicial, mas para ajudá-las a compreender o plano de Deus e a viver como parte da nova humanidade.
O evangelho precisa ser anunciado, explicado, incorporado e praticado.
14. A igreja como demonstração da sabedoria de Deus — Efésios 3.10
Paulo chega a uma das declarações mais impressionantes da carta:
“Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais.”
A palavra traduzida por “multiforme” é polypoikilos.
Ela comunica variedade, riqueza de formas, multiplicidade de aspectos. Hendriksen procura captar a beleza da expressão falando da sabedoria “iridescente” de Deus: uma sabedoria que, como a luz atravessando um prisma, manifesta muitas cores (HENDRIKSEN, 2013).
A igreja é o lugar histórico no qual essa sabedoria se torna visível.
Poderes celestiais contemplam algo que parecia impossível:
pecadores reconciliados com Deus;
inimigos reconciliados entre si;
judeus e gentios participando da mesma mesa;
pessoas de diferentes origens formando um corpo sob o senhorio de Cristo.
A igreja não é apenas uma associação religiosa que oferece cultos e programas.
Ela é uma declaração cósmica de que o propósito de Deus em Cristo está avançando.
Deus não venceu o mal apenas punindo culpados. Ele os redimiu.
Não derrotou a hostilidade simplesmente mantendo os inimigos separados. Reconciliou-os por meio da cruz.
14.1 Quando o testemunho é obscurecido
Efésios 3.10 não diz que os demônios “riem” quando a igreja se divide. Essa formulação ultrapassaria as palavras do texto.
Podemos afirmar, contudo, que uma igreja que reconstrói voluntariamente os muros derrubados por Cristo obscurece o testemunho que foi chamada a manifestar.
Quando pessoas anteriormente separadas vivem reconciliadas, a igreja anuncia ao mundo visível e invisível que Cristo venceu a hostilidade.
Quando a comunidade protege preconceitos, superioridades raciais, desprezo de classe ou exclusões culturais, sua prática contradiz a mensagem que proclama.
A unidade não salva a igreja. Cristo salva.
Mas a igreja reconciliada torna visível a natureza da salvação realizada por Cristo.
15. O propósito eterno, o acesso confiante e o sofrimento — Efésios 3.11–13
Tudo isso aconteceu segundo o “eterno propósito” realizado em Cristo Jesus.
A igreja reconciliada não é uma invenção recente, criada para satisfazer as expectativas culturais da modernidade.
Ela nasce do propósito eterno de Deus e da obra histórica do Filho.
Em Cristo, afirma Paulo, temos parrēsia e prosagōgē.
Parrēsia envolve ousadia, liberdade e confiança para falar. Prosagōgē comunica acesso ou admissão à presença de alguém.
Judeus e gentios aproximam-se do mesmo Pai pelo mesmo Filho e no mesmo Espírito.
Nenhum povo entra por uma porta superior. Nenhum grupo permanece mais próximo do trono. Nenhuma cultura possui acesso privilegiado à presença de Deus.
Por isso, Paulo pede que os efésios não desanimem por causa de suas tribulações.
As correntes do apóstolo poderiam parecer uma contradição. Se o evangelho estava vencendo, por que seu mensageiro estava preso?
Paulo interpreta seu sofrimento à luz da missão. Suas tribulações em favor dos gentios eram a glória deles.
Sua prisão demonstrava quanto estava disposto a suportar para que pessoas anteriormente excluídas conhecessem as riquezas de Cristo.
A liderança cristã não deve romantizar o sofrimento nem usá-lo para construir a própria imagem. Porém, também não pode medir a aprovação de Deus apenas pela ausência de dificuldades.
PARTE II — A ORAÇÃO PELA PLENITUDE
16. “Por esta causa, me ponho de joelhos” — Efésios 3.14–15
Depois da longa explicação, Paulo retoma a oração iniciada no versículo 1:
“Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai.”
A postura mais comum de oração no mundo bíblico era em pé. A menção dos joelhos dobrados comunica intensidade, reverência e dependência.
A teologia de Paulo desemboca em oração.
Ele não trata o mistério apenas como assunto para discussão intelectual. A verdade o conduz à presença de Deus.
Essa ligação é indispensável.
Exegese que não produz reverência pode aumentar informação sem aprofundar comunhão. Aplicação social sem oração pode transformar a igreja numa organização ativista. Experiência espiritual sem verdade pode degenerar em sentimentalismo.
Paulo ensina e ora.
Ele sabe que nenhuma explicação, por mais correta que seja, substitui a ação do Espírito no coração.
16.1 O Pai de toda família
Paulo dobra os joelhos diante do Pai, “de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra”.
A expressão grega pasa patria admite discussão. Pode ser traduzida por “toda família” ou, dependendo da compreensão, “a família inteira”.
O ponto central é que toda verdadeira realidade familiar, todo pertencimento e toda identidade encontram sua fonte última no Pai.
Isso não ensina uma paternidade salvadora universal que dispense Cristo. Paulo está escrevendo sobre a família formada por meio do evangelho.
A nova comunidade existe porque Deus não é apenas o juiz que perdoa. É o Pai que dá nome, identidade e pertencimento ao seu povo.
17. Fortalecidos pelo Espírito no homem interior — Efésios 3.16
O primeiro pedido de Paulo é:
“Que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no homem interior.”
A expressão grega inclui krataiōthēnai dynamei: ser fortalecido com poder.
Paulo não pede inicialmente uma mudança nas circunstâncias externas. Não pede o fim da perseguição, estabilidade política ou prosperidade material.
Pede força interior.
Isso não significa que as necessidades materiais sejam irrelevantes. Significa reconhecer que há circunstâncias que só podem ser atravessadas por pessoas fortalecidas no centro de seu ser.
O “homem interior”, esō anthrōpos, é a dimensão profunda da pessoa: o centro dos pensamentos, desejos, decisões, afetos e convicções diante de Deus.
A presença do Espírito já era uma realidade nos cristãos. Paulo não ora para que recebam um Espírito que ainda não possuem, mas para que aquilo que já está presente seja fortalecido e aprofundado (HENDRIKSEN, 2013).
17.1 O poder necessário para viver a reconciliação
Uma comunidade reconciliada necessita desse poder.
Estruturas podem obrigar pessoas diferentes a permanecer no mesmo ambiente, mas não podem produzir amor.
Regulamentos podem limitar manifestações externas de preconceito, mas não transformam o coração.
A reconciliação cristã exige ensino, justiça, arrependimento, mudanças concretas e prestação de contas. Porém, em seu nível mais profundo, depende da ação do Espírito Santo.
O Espírito não fortalece a igreja para que ela preserve seus antigos muros.
Ele a fortalece para que viva de acordo com a nova realidade criada por Cristo.
18. Para que Cristo habite nos corações — Efésios 3.17
Paulo ora:
“E, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé.”
O verbo é katoikeō, aqui na forma katoikēsai. Ele sugere habitação estabelecida, residência permanente, presença que se sente em casa.
Os efésios já eram cristãos. Cristo já lhes pertencia e eles pertenciam a Cristo.
A oração, portanto, não trata simplesmente da entrada inicial de Jesus na vida de alguém. Paulo deseja que a presença e o governo de Cristo alcancem cada parte da existência da comunidade.
Cristo não deve ser tratado como visitante respeitado, mas como Senhor residente.
É possível confessar Cristo com os lábios e manter áreas inteiras da vida fora de seu governo.
Cristo pode ser celebrado no culto e ignorado nos relacionamentos raciais. Pode ser confessado na doutrina e contrariado na maneira como tratamos pobres, estrangeiros e pessoas de outra classe.
Pode ser cantado como Senhor enquanto nossas preferências culturais exercem o verdadeiro domínio.
Paulo ora para que Cristo se sinta plenamente em casa no coração de seu povo.
19. Enraizados e alicerçados em amor
Paulo combina duas metáforas:
“Estando vós arraigados e alicerçados em amor.”
“Arraigados” vem do verbo rhizoō e pertence ao campo da agricultura. Uma árvore permanece firme e produz fruto porque suas raízes penetram profundamente no solo.
“Alicerçados” vem de themelioō e pertence ao campo da construção. Um edifício permanece porque foi estabelecido sobre um fundamento resistente.
Em ambas as imagens, o amor é o ambiente da estabilidade cristã.
Não é um amor separado da verdade. É o amor santo, sacrificial e perseverante revelado na entrega de Cristo.
Uma igreja pode ser doutrinariamente informada e relacionalmente adoecida.
Pode defender a verdade enquanto seus membros ferem, desprezam e excluem uns aos outros.
Paulo não imagina maturidade cristã sem amor.
A estabilidade da igreja não vem apenas de documentos, estruturas e confissões corretas, embora sejam importantes. Ela vem de pessoas profundamente enraizadas na graça e comprometidas com o bem umas das outras.
20. Compreender com todos os santos — Efésios 3.18
Paulo ora para que os efésios sejam capazes de compreender, “com todos os santos”, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade.
O verbo traduzido por compreender é katalambanō, aqui com o sentido de apreender, alcançar ou tomar posse mental e espiritualmente de algo.
A expressão “com todos os santos” não é um detalhe.
Nenhum cristão isolado compreende toda a extensão do amor de Cristo.
Conhecemos esse amor na comunhão do corpo.
Pessoas de histórias diferentes percebem dimensões que nós não percebemos. O testemunho de quem sofreu, de quem foi marginalizado, de quem atravessou outra cultura ou encontrou Cristo em circunstâncias diferentes amplia nossa compreensão da graça.
Uma comunidade excessivamente homogênea pode desenvolver pontos cegos justamente porque todos interpretam a realidade a partir de experiências semelhantes.
A diversidade reconciliada não apenas demonstra o amor de Cristo.
Ela nos ajuda a conhecê-lo.
20.1 Largura, comprimento, altura e profundidade
Paulo não parece estar oferecendo uma definição técnica para cada dimensão.
O conjunto comunica vastidão, totalidade e imensidão.
O amor de Cristo é largo o suficiente para alcançar os povos; longo o suficiente para atravessar a história; profundo o suficiente para descer à nossa miséria; alto o suficiente para conduzir-nos à presença de Deus.
Mas nenhuma descrição esgota sua grandeza.
21. Conhecer o amor que excede o conhecimento — Efésios 3.19
Paulo apresenta um paradoxo:
“E conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento.”
O verbo “conhecer” é ginōskō, aqui na forma gnōnai.
Paulo deseja que conheçamos algo que ultrapassa o conhecimento.
Isso não é contradição.
Podemos conhecer verdadeiramente o amor de Cristo sem conhecê-lo exaustivamente.
Podemos experimentá-lo, contemplá-lo, recebê-lo e ser transformados por ele, mas nunca esgotá-lo.
A teologia cristã não deve escolher entre conhecimento e experiência.
Doutrina sem comunhão pode inflar o orgulho. Experiência sem doutrina perde seu fundamento e pode facilmente ser confundida com emoção passageira.
Conhecemos o amor de Cristo pela Palavra, pela ação do Espírito e na comunhão com todos os santos.
22. Cheios de toda a plenitude de Deus
Esse é o clímax da oração:
“Para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.”
A palavra é plērōma: plenitude.
Ser cheio da plenitude de Deus não significa tornar-se Deus, compartilhar sua essência incomunicável ou deixar de ser criatura.
Paulo fala de uma vida e de uma comunidade progressivamente preenchidas pela presença, pelo caráter e pelos propósitos de Deus.
A igreja é cheia da plenitude divina à medida que:
é fortalecida pelo Espírito;
Cristo exerce seu governo;
o amor se torna seu fundamento;
os santos compreendem juntos a graça;
a vida comunitária reflete o caráter de Deus.
Lloyd-Jones descreve Efésios 3.19 como o ponto culminante da oração de Paulo. O apóstolo sobe progressivamente até apresentar uma das mais elevadas possibilidades da experiência cristã: uma vida profundamente preenchida por Deus (LLOYD-JONES, 1992).
Essa plenitude também possui uma dimensão comunitária.
Uma igreja cheia de Deus não pode contentar-se com hostilidade, orgulho racial, desprezo social e individualismo.
A plenitude de Deus manifesta-se em santidade, amor, verdade, justiça, comunhão e maturidade.
23. Infinitamente mais do que pedimos ou pensamos — Efésios 3.20–21
Paulo termina com uma doxologia:
“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus.”
Os pedidos anteriores são humanamente impossíveis.
Como pessoas historicamente separadas poderão viver como um corpo?
Como corações marcados pelo pecado poderão amar dessa maneira?
Como uma igreja frágil poderá manifestar a sabedoria de Deus ao universo?
A resposta não está na competência humana, mas no poder de Deus que opera em seu povo.
A expressão grega é intensamente enfática. Paulo acumula termos para comunicar que Deus pode agir superabundantemente além de tudo o que conseguimos pedir ou conceber.
Isso não é uma promessa de que Deus realizará todos os desejos individuais.
A doxologia está ligada à oração anterior:
fortalecimento pelo Espírito;
habitação de Cristo;
enraizamento em amor;
compreensão do amor;
plenitude de Deus.
Deus é poderoso para fazer infinitamente mais na transformação de seu povo.
A glória é dada “na igreja e em Cristo Jesus”.
Cristo é o mediador e centro da glória. A igreja é a comunidade na qual a obra de Cristo se torna visível.
Paulo não termina glorificando um método, um apóstolo ou uma instituição.
Termina glorificando Deus.
PARTE III — QUANDO A HISTÓRIA DA IGREJA CONTRADIZ O MISTÉRIO
24. A aplicação contemporânea não é um desvio do texto
Efésios 3 não pode ser estudado apenas como uma exposição sobre o passado.
A igreja é apresentada como o espaço no qual a nova humanidade criada por Cristo deve tornar-se visível.
Por isso, o texto exige que examinemos nossos modelos ministeriais, nossas estruturas de pertencimento e nossas estratégias de crescimento.
A aplicação contemporânea não substitui a exegese. Ela nasce da exegese.
O caminho do argumento é este:
mistério revelado → igualdade no mesmo corpo → testemunho cósmico da igreja → avaliação das estruturas que contradizem essa realidade.
Se Paulo afirma que judeus e gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa, não podemos tratar a segregação racial, social ou cultural como um assunto irrelevante.
25. Contextualização e homogeneidade não são a mesma coisa
Toda missão fiel precisa de contextualização.
O evangelho deve ser comunicado em linguagem compreensível. Missionários precisam aprender idiomas, conhecer costumes, ouvir as perguntas das pessoas e distinguir o conteúdo imutável da mensagem das formas culturais usadas para anunciá-la.
Contextualizar é perguntar:
“Como podemos comunicar fielmente Cristo a estas pessoas?”
A homogeneização eclesiológica pergunta algo diferente:
“Como podemos construir uma igreja inteiramente organizada segundo as preferências do grupo que desejamos atrair?”
As duas coisas não são iguais.
Uma igreja pode usar determinado idioma, estilo musical ou horário por razões contextuais legítimas.
O problema surge quando essas escolhas deixam de ser pontes missionárias e transformam-se em fronteiras de pertencimento.
26. O princípio das unidades homogêneas
Donald McGavran tornou conhecido o chamado princípio das unidades homogêneas.
Sua formulação procurava descrever uma realidade sociológica: as pessoas tendem a receber mudanças religiosas com menos resistência quando não precisam, ao mesmo tempo, atravessar grandes barreiras raciais, linguísticas ou sociais.
Havia uma preocupação legítima nessa observação. Ninguém deveria precisar abandonar sua cultura e adotar os costumes do missionário estrangeiro para tornar-se discípulo de Jesus.
O problema aparece quando uma descrição sociológica é transformada em ideal permanente para a igreja.
Existe diferença entre:
anunciar o evangelho dentro de uma cultura;
permitir que novos cristãos compreendam a fé em seu idioma;
formar lideranças locais;
e construir comunidades que evitam deliberadamente a comunhão entre pessoas diferentes.
A Consulta de Pasadena, promovida pelo Movimento de Lausanne para discutir o princípio homogêneo, reconheceu a realidade das identidades culturais, mas também reafirmou que há uma só igreja e que sua unidade precisa tornar-se visível e caminhar em direção à maturidade em Cristo (LAUSANNE MOVEMENT, [s.d.]). (Lausanne Movement)
O problema bíblico não está em reconhecer diferenças culturais.
O problema está em transformar essas diferenças em muros permanentes dentro do corpo de Cristo.
27. Uma igreja com propósitos e o caso de Saddleback Sam
Um dos exemplos mais influentes de segmentação evangelística encontra-se em Uma igreja com propósitos, de Rick Warren.
A obra teve enorme alcance e moldou gerações de pastores. A própria Editora Vida a descreve como um livro que marcou profundamente a história da igreja evangélica nos séculos XX e XXI. (Editora Vida)
O livro não apresenta apenas uma contextualização genérica para alcançar “todo tipo de pessoa”. Ele ensina a igreja a identificar o grupo que está mais preparada para alcançar e a construir um perfil composto de seu público-alvo.
Em Saddleback, esse personagem recebeu o nome de Saddleback Sam.
Sam representava um tipo sociocultural específico: um homem suburbano, profissionalmente estabelecido, escolarizado, relativamente afluente, casado, com filhos, apreciador de música contemporânea, informal no modo de vestir e desconfiado da religião institucional.
O personagem não era apenas uma ilustração decorativa.
Ele ajudava a liderança a imaginar:
o estilo musical;
a linguagem das mensagens;
a aparência do ambiente;
a forma de acolhimento;
o nível de informalidade;
os temas que despertariam interesse;
a experiência do culto destinada ao visitante.
Warren também argumentou que as pessoas mais facilmente alcançadas costumam ser semelhantes aos membros e ao pastor, relacionando o crescimento mais rápido à correspondência entre comunidade, liderança e congregação (WARREN, 1998, cap. 9–10).
Historicamente, portanto, não é correto afirmar que Saddleback sempre trabalhou simplesmente com um público indiferenciado e universal.
Havia um público-alvo claramente definido.
27.1 O que essa constatação não significa
Reconhecer essa história não significa afirmar que Rick Warren pretendia conscientemente defender racismo ou proibir pessoas diferentes de frequentar a igreja.
Também não significa que nada de bom tenha sido produzido por aquele ministério.
O livro contém contribuições relevantes sobre missão, discipulado, serviço, adoração e organização da igreja em torno de propósitos bíblicos.
A crítica responsável não precisa transformar toda a obra em erro para avaliar um de seus princípios.
A questão é outra:
O que acontece quando um perfil sociocultural específico deixa de ser apenas um instrumento de compreensão missionária e passa a determinar a forma da comunidade?
O problema não está em alcançar Saddleback Sam.
Sam também precisa do evangelho.
O problema aparece quando Sam se transforma na medida da igreja:
sua música torna-se a música normal;
sua linguagem torna-se a linguagem normal;
sua estética torna-se a estética normal;
sua escolaridade define o nível de comunicação;
sua condição econômica determina o ambiente;
seu conforto orienta as decisões;
todos os demais precisam adaptar-se ao mundo de Sam para pertencer.
Nesse caso, a igreja pode declarar que recebe todos, mas sua estrutura comunica que foi imaginada principalmente para alguns.
27.2 A formulação central
O princípio pode ser resumido desta maneira:
O evangelho deve ser contextualizado para alcançar Saddleback Sam, mas a igreja não pode ser construída de maneira que todos precisem tornar-se semelhantes a Sam para pertencer plenamente ao corpo de Cristo.
28. Mudanças posteriores não apagam a história
Materiais oficiais atuais apresentam Saddleback como uma congregação de “todas as nações”, na qual pessoas de diferentes origens étnicas, raciais e culturais devem ser amadas e celebradas. A igreja também declara publicamente seu compromisso com a unidade racial e atualmente possui presença em diferentes continentes. (Igreja Saddleback)
Essas declarações devem ser reconhecidas como um desenvolvimento positivo.
Entretanto, materiais institucionais atuais não devem ser usados para reescrever a história do modelo original.
É necessário distinguir três realidades:
o modelo ensinado por Rick Warren na década de 1990;
a influência que esse modelo exerceu sobre milhares de igrejas;
a identidade e as práticas atuais da Saddleback Church.
Uma mudança posterior, quando existe, deve ser celebrada. Mas ela não torna desnecessário examinar o que foi ensinado anteriormente.
Aprendemos com a história quando a contamos com honestidade.
Omitir a história impede a igreja de reconhecer como determinadas ideias surgiram, por que foram atraentes, quais resultados produziram e quais correções se tornaram necessárias.
Também não devemos usar o modelo de 1995 para afirmar, sem investigação, que tudo permanece exatamente igual em 2026.
O caminho responsável não é condenar sem nuance nem absolver por amnésia.
É analisar, aprender e corrigir.
29. A permanência da separação racial nas congregações norte-americanas
A discussão não pertence apenas ao passado.
A pesquisa Religious Landscape Study 2023–2024, publicada pelo Pew Research Center em 2025, constatou que 66% dos adultos norte-americanos que frequentam serviços religiosos participam de congregações nas quais todos ou a maioria dos presentes possuem a mesma raça ou etnia que eles. A mesma proporção declarou que todos ou a maioria dos líderes religiosos seniores pertencem ao seu grupo racial ou étnico. (Pew Research Center)
Esses dados não significam que todas as igrejas norte-americanas sejam deliberadamente segregacionistas.
Também não provam que não houve progresso.
Demonstram, contudo, que a homogeneidade racial continua sendo uma característica predominante da experiência religiosa no país.
A análise precisa reconhecer a complexidade histórica das igrejas negras. Muitas delas surgiram não porque cristãos negros desejassem preservar superioridade racial, mas porque foram excluídos, discriminados e impedidos de participar plenamente das instituições brancas.
Ao longo da história norte-americana, igrejas negras tornaram-se lugares de segurança, educação, organização comunitária, resistência e defesa da dignidade durante a segregação. (Serviço Nacional de Parques)
Por isso, não se pode tratar toda congregação historicamente negra como moralmente equivalente a comunidades que preservaram a separação para manter privilégios.
As estruturas podem parecer semelhantes externamente, mas suas histórias e relações de poder são diferentes.
30. O espelho brasileiro
É fácil analisar os erros das igrejas norte-americanas e não perceber as divisões presentes no cristianismo brasileiro.
Nossas barreiras nem sempre aparecem da mesma maneira, mas podem manifestar-se em:
racismo explícito ou velado;
desprezo por nordestinos, indígenas, africanos, migrantes e estrangeiros;
igrejas organizadas como clubes de uma classe social;
comunidades nas quais pobres são recebidos, mas não ouvidos;
preconceito contra moradores de favelas e periferias;
liderança que nunca reflete minimamente as pessoas da congregação;
resistência cultural apresentada como defesa doutrinária;
polarização política transformada em teste de comunhão;
confusão entre costumes de um grupo e o próprio evangelho.
Uma igreja não precisa reproduzir artificialmente toda a composição demográfica de sua cidade para ser fiel.
Porém, precisa perguntar se existem barreiras invisíveis afastando as pessoas que Deus está trazendo.
Algumas perguntas são necessárias:
Quem se sente em casa entre nós?
Quem precisa abandonar toda a sua maneira de falar, vestir ou expressar-se para ser considerado maduro?
Quem é convidado para trabalhar, mas não para decidir?
Quem é visto como campo missionário, mas nunca como possível líder?
Nossa música, linguagem, estética e organização comunicam que apenas um tipo de pessoa representa o cristão normal?
A resposta não pode ser uma diversidade decorativa.
Não basta colocar pessoas de cores diferentes em uma fotografia institucional.
Efésios fala de herança comum, corpo comum e participação comum.
31. Homogeneidade circunstancial e homogeneidade protegida
Nem toda igreja pouco diversa está necessariamente em pecado.
Uma congregação localizada em uma comunidade quase inteiramente formada por um mesmo grupo provavelmente refletirá a população ao seu redor.
Idioma, localização, migração e história local podem produzir certa homogeneidade.
A questão decisiva não é apenas:
“Nossa igreja é diversificada?”
A pergunta mais profunda é:
“Quando Deus nos envia pessoas diferentes, nós as recebemos como membros plenamente iguais do corpo?”
A homogeneidade torna-se um problema espiritual quando é:
desejada como ideal;
protegida contra a chegada dos diferentes;
usada como estratégia para evitar conflitos;
sustentada por preconceitos;
transformada em condição de liderança;
justificada apenas pela eficiência numérica.
O problema não é simplesmente uma igreja ser momentaneamente homogênea.
O problema é desejar permanecer assim para preservar o conforto de seu grupo dominante.
32. O custo pastoral da reconciliação
Construir uma comunidade verdadeiramente reconciliada é mais difícil do que reunir pessoas semelhantes.
Pessoas parecidas compartilham códigos, expectativas, gostos e maneiras de interpretar a realidade.
A diversidade real produz incompreensões, tensões e necessidade de aprendizado.
Uma liderança que confronta preconceitos pode enfrentar resistência. Membros podem sair. Doadores podem retirar apoio. Outros líderes podem acusar o pastor de abandonar a missão ou de politizar a igreja.
Entretanto, não devemos romantizar toda perda como prova de fidelidade.
Pessoas também podem sair porque a liderança foi arrogante, imprudente, humilhante ou incapaz de ouvir.
O pastor precisa examinar o próprio coração.
Firmeza bíblica não autoriza agressividade.
Efésios 4 mostrará que a verdade deve ser praticada “em amor”. O confronto cristão não procura vencer inimigos, mas ganhar irmãos.
A verdade sem amor pode tornar-se instrumento de orgulho.
O amor sem verdade preserva pecados que continuam ferindo o corpo.
A liderança pastoral precisa perguntar:
“Estou dizendo a verdade?”
Mas também:
“Estou dizendo a verdade de uma maneira coerente com o Cristo que se entregou por seus inimigos?”
PARTE IV — IMPLICAÇÕES PARA A IGREJA, O DISCIPULADO E A LIDERANÇA
33. Para a vida cristã pessoal
Efésios 3 nos ensina que a salvação não é uma experiência isolada.
Ser salvo significa ser reconciliado com Deus e incorporado ao corpo de Cristo.
Por isso, cada cristão precisa examinar:
seus preconceitos;
suas preferências transformadas em absolutos;
sua resistência a pessoas diferentes;
sua tendência de associar maturidade à própria cultura;
sua disposição de ouvir experiências que não conhece.
O amor de Cristo é compreendido “com todos os santos”.
O isolamento empobrece nossa visão da graça.
34. Para a igreja local
A comunidade deve avaliar não apenas quantas pessoas estão chegando, mas que tipo de corpo está sendo formado.
Crescimento numérico não é automaticamente sinal de saúde.
Uma igreja pode crescer atraindo pessoas semelhantes, preservando conforto cultural e evitando todo conflito, enquanto permanece distante da visão de Efésios.
A pergunta não é somente:
“Estamos crescendo?”
Mas:
“Nosso crescimento torna visível a nova humanidade criada por Cristo?”
A igreja deve criar espaços de comunhão nos quais pessoas diferentes possam:
partilhar a mesa;
contar suas histórias;
servir juntas;
aprender umas com as outras;
participar das decisões;
desenvolver seus dons;
assumir responsabilidades reais.
35. Para a liderança pastoral
O pastor não pode tratar a diversidade apenas como estratégia de marketing.
Também não deve impor artificialmente uma aparência de diversidade sem cultivar relacionamentos verdadeiros.
A liderança precisa:
ensinar a teologia da reconciliação;
confrontar o preconceito com verdade e amor;
examinar as barreiras criadas pela cultura da igreja;
ampliar a escuta;
formar líderes de diferentes origens;
prestar contas de suas decisões;
avaliar se o público-alvo se tornou um senhor oculto da comunidade.
Conhecer a população que se deseja alcançar é sábio.
Fazer dela a medida de toda a igreja é perigoso.
36. Para o discipulado
Discipulado não é apenas transmissão de informações bíblicas.
É formação de pessoas que aprendem a viver sob o senhorio de Cristo dentro do corpo.
Um discípulo maduro:
reconhece a graça que recebeu;
serve com humildade;
aprende a amar pessoas diferentes;
rejeita superioridade cultural;
participa da reconciliação;
busca conhecer o amor de Cristo com todos os santos;
permite que Cristo governe áreas profundas do coração.
Discipular alguém é ajudá-lo a sair do centro de seu pequeno mundo e encontrar seu lugar na grande família de Deus.
37. Para a oração da igreja
Paulo oferece um modelo de intercessão pastoral.
Ele não ora primeiramente por conforto, prosperidade ou expansão institucional.
Ora para que os cristãos:
sejam fortalecidos pelo Espírito;
tenham Cristo profundamente estabelecido no coração;
sejam enraizados e alicerçados em amor;
compreendam o amor de Cristo em comunidade;
sejam cheios da plenitude de Deus.
Essas deveriam ser prioridades permanentes da oração pastoral.
Antes de pedir que a igreja fique maior, devemos pedir que ela fique mais cheia de Deus.
Antes de pedir maior visibilidade, devemos pedir maior semelhança com Cristo.
Antes de pedir mais recursos, devemos pedir mais amor.
38. Conclusão: a igreja que o mistério produz
Efésios 3 apresenta uma visão extraordinária da vida cristã.
Paulo está preso, mas não está derrotado.
É ministro, mas não é proprietário da graça.
Recebeu uma revelação, mas não a utiliza para exaltar-se.
Considera-se o menor dos santos, mas anuncia as insondáveis riquezas de Cristo.
O mistério revelado é que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa.
A igreja formada por Cristo torna visível a sabedoria multiforme de Deus diante do universo.
Por isso, a unidade cristã não pode ser reduzida a cordialidade superficial.
Ela exige:
pertencimento;
igualdade;
participação;
arrependimento;
reconciliação;
amor;
verdade.
A contextualização missionária é necessária. O evangelho deve ser comunicado de forma compreensível em cada cultura.
Mas nenhuma estratégia pode transformar barreiras raciais, sociais ou culturais em estruturas permanentes da igreja.
A história precisa ser lembrada com honestidade.
Devemos reconhecer o impacto de modelos como o de Saddleback Sam, avaliar suas contribuições e perigos, celebrar correções posteriores e recusar a tentação de reescrever o passado.
A igreja aprende quando examina sua história à luz das Escrituras.
Paulo termina dobrando os joelhos porque sabe que nenhuma técnica pode produzir a comunidade descrita neste capítulo.
Somente o Espírito pode fortalecer o homem interior.
Somente Cristo pode governar profundamente o coração.
Somente o amor do Senhor pode sustentar uma comunidade de pessoas diferentes.
Somente Deus pode encher seu povo de sua plenitude.
A pergunta final não é apenas se nossa igreja está crescendo.
Precisamos perguntar:
Nosso crescimento torna visível o mistério revelado por Deus?
Pessoas diferentes estão apenas frequentando o mesmo auditório ou estão se tornando membros do mesmo corpo?
Nossa comunidade manifesta a sabedoria multiforme de Deus ou reproduz as divisões da cultura?
Cristo realmente habita entre nós, governando nossas estruturas, preferências e relacionamentos?
A esperança de Efésios 3 é que Deus é poderoso para fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos.
Ele pode transformar estranhos em família, inimigos em irmãos, pessoas distantes em participantes da promessa e comunidades fragmentadas em manifestações vivas de sua glória.
“A ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém.”
Referências
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