Marcos e Demas: quando a graça restaura e quando o amor ao mundo afasta
Um estudo pastoral sobre discernimento, restauração ministerial e abandono espiritual na vida dos cooperadores de Paulo
Nem toda falha ministerial é abandono espiritual, e nem todo afastamento deve ser tratado como simples fraqueza momentânea. A história de João Marcos e Demas, ambos ligados ao círculo missionário de Paulo, revela a necessidade de uma virtude pastoral rara: discernir quando a graça está restaurando alguém e quando o coração de alguém está sendo seduzido pelo presente século.
João Marcos falhou, mas foi restaurado. Demas cooperou, mas abandonou. Barnabé insistiu na possibilidade de recuperação. Paulo, com o tempo, reconheceu a utilidade daquele que antes havia recusado levar consigo. Essas histórias, quando lidas em conjunto, não apenas iluminam episódios importantes do Novo Testamento, mas também oferecem uma orientação pastoral preciosa para a igreja: restaurar os quebrantados, esperar o amadurecimento dos fracos e reconhecer, com temor, quando alguém escolheu outro amor.
1. Mapa pedagógico do estudo
| Personagem | Situação inicial | Crise | Desfecho bíblico | Lição pastoral |
|---|---|---|---|---|
| João Marcos | Auxiliar na missão de Barnabé e Paulo | Afasta-se da equipe em Perge | Torna-se útil para Paulo | Falhas podem ser restauradas |
| Barnabé | Cooperador generoso e encorajador | Discorda de Paulo sobre Marcos | Continua sendo honrado por Paulo | Restauração exige investimento |
| Paulo | Líder apostólico e missionário | Recusa levar Marcos naquele momento | Depois reconhece sua utilidade | Discernimento não é rancor |
| Demas | Cooperador de Paulo | Abandona Paulo | Ama o presente século | Nem todo afastamento é apenas cansaço |
A comparação entre esses personagens mostra que o Novo Testamento não trata a vida ministerial de maneira simplista. Há falhas que precisam de tempo, correção e restauração. Há abandonos que precisam ser nomeados com seriedade. Há líderes que precisam aprender a unir graça e discernimento.
2. A tese central: Paulo não era rancoroso, mas também não era ingênuo
O ministério de Paulo foi marcado por uma ampla rede de cooperadores. Ele não serviu sozinho. Ao redor dele havia missionários, obreiros, irmãos, discípulos, mensageiros, companheiros de prisão, hospedeiros, intercessores e colaboradores. Entre esses nomes, João Marcos e Demas se destacam por representarem trajetórias diferentes dentro do ambiente missionário paulino.
Ambos aparecem ligados, em momentos distintos, ao círculo de trabalho do apóstolo. Contudo, o desenvolvimento de suas histórias revela que Paulo não tratava toda falha ministerial da mesma forma. Ele distinguia entre uma falha circunstancial, passível de restauração, e um afastamento motivado por uma mudança mais profunda de afeição espiritual.
João Marcos representa o caminho da restauração. Ele falhou, mas voltou a ser útil. Demas representa o caminho do afastamento. Ele cooperou, mas depois abandonou Paulo por amar o presente século.
Essa leitura precisa ser feita com equilíbrio. O texto bíblico não fornece todos os detalhes psicológicos, emocionais ou pastorais dessas relações. Não sabemos tudo que aconteceu no coração de Marcos, nem todos os detalhes que levaram Demas a partir. Ainda assim, a sequência cronológica e literária das passagens permite perceber um princípio importante: Paulo não era rancoroso a ponto de fechar definitivamente a porta para quem havia falhado, mas também não era ingênuo a ponto de tratar todo abandono como se fosse apenas fraqueza momentânea.
3. João Marcos: da falha ministerial à utilidade restaurada
João Marcos aparece inicialmente associado à missão de Barnabé e Saulo. Em Atos 12.25, Barnabé e Saulo retornam de Jerusalém levando João, também chamado Marcos. Em Atos 13.5, ele aparece como auxiliar da equipe missionária. Contudo, em Atos 13.13, ocorre o primeiro ponto de tensão: Marcos se aparta deles em Perge, na Panfília, e retorna para Jerusalém.
O texto de Atos não explica detalhadamente as motivações de Marcos. Não afirma que ele tenha cometido pecado moral, abraçado falsa doutrina ou abandonado a fé. O fato registrado é que ele deixou a equipe missionária. No entanto, para Paulo, essa saída teve peso suficiente para comprometer sua confiança na participação de Marcos em uma nova viagem.
Em Atos 15.36-39, quando Paulo propõe a Barnabé visitar novamente os irmãos nas cidades onde haviam anunciado a Palavra, Barnabé deseja levar João Marcos. Paulo, porém, discorda. Para ele, Marcos havia se afastado deles desde a Panfília e não os acompanhado naquela obra. O resultado é uma forte desavença entre Paulo e Barnabé.
A palavra grega usada em Atos 15.39 é παροξυσμός — paroxysmós, termo que indica uma irritação intensa, provocação ou desacordo agudo. A crise foi real. Não se tratou de uma diferença leve de opinião. Dois grandes servos de Deus chegaram a uma ruptura prática na parceria missionária.
Nesse ponto, é importante observar que Paulo e Barnabé parecem enxergar a mesma situação por ângulos diferentes. Paulo avalia a confiabilidade de Marcos para a missão. Barnabé enxerga a possibilidade de restauração de Marcos. Paulo está preocupado com a obra; Barnabé está preocupado com a recuperação do obreiro. Nenhum dos dois precisa ser transformado em vilão. A tensão envolve discernimento ministerial, maturidade, risco, responsabilidade e oportunidade.
4. Barnabé: o restaurador que insistiu onde havia risco
A presença de Barnabé na história é essencial. Ele não é apenas um personagem secundário no conflito entre Paulo e Marcos. Barnabé representa o ministério da consolação, do encorajamento e da segunda chance.
Em Atos 4.36, Barnabé é chamado de “filho da consolação” ou “filho da exortação”. Em Atos 9.26-27, ele acolhe Paulo quando os discípulos ainda tinham medo dele e duvidavam da sinceridade de sua conversão. Barnabé foi, para Paulo, aquilo que mais tarde parece ter sido para Marcos: alguém disposto a enxergar uma possibilidade de futuro onde outros ainda viam risco.
O parentesco entre Marcos e Barnabé é informado em Colossenses 4.10, onde Marcos é chamado de ἀνεψιός — anepsiós de Barnabé, isto é, “primo” de Barnabé. Esse dado ajuda a explicar a proximidade entre os dois, mas não deve ser usado para reduzir a atitude de Barnabé a mero favoritismo familiar. O perfil de Barnabé, desde Atos, revela um homem inclinado a encorajar, acolher e investir em pessoas que ainda estavam em processo.
Por isso, em Atos 15, Barnabé age de modo coerente com sua própria trajetória. Ele insiste em Marcos porque parece acreditar que a falha anterior não deveria encerrar a vocação daquele jovem cooperador. Paulo, por sua vez, age de acordo com a responsabilidade da missão. Sua preocupação não era necessariamente condenar Marcos para sempre, mas discernir se ele estava pronto para aquela obra naquele momento.
Essa tensão ensina que nem toda crise entre servos de Deus decorre de pecado moral, heresia ou falta de caráter. Às vezes, a crise surge de avaliações diferentes sobre tempo, maturidade, risco e responsabilidade. A discordância foi séria, mas não precisa ser interpretada como ruptura definitiva de honra.
Isso é reforçado por 1 Coríntios 9.6, onde Paulo menciona Barnabé ao defender o direito apostólico de receber sustento: “Ou somente eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?”. Essa referência não prova que Paulo e Barnabé voltaram a viajar juntos, nem descreve uma reconciliação formal. Contudo, mostra que Paulo ainda reconhecia Barnabé como referência válida no ministério. Ele não o trata como inimigo, não apaga sua memória e não o desqualifica publicamente.
5. A restauração de Marcos não foi sentimental; foi ministerial
A história de Marcos não termina em Atos 15. Anos depois, ele reaparece no círculo de Paulo. Em Colossenses 4.10, Paulo o menciona junto aos seus cooperadores. Em Filemom 24, Marcos é listado entre aqueles que trabalham com Paulo. Finalmente, em 2 Timóteo 4.11, Paulo declara: “Toma Marcos e traze-o contigo, porque me é útil para o ministério”.
Essa frase é decisiva. O mesmo Marcos que antes não foi considerado adequado para acompanhar Paulo em uma nova viagem missionária agora é considerado útil para o ministério.
O termo grego usado em 2 Timóteo 4.11 é εὔχρηστος — euchrēstos, que transmite a ideia de alguém proveitoso, prestativo, adequado e útil para determinado serviço. A restauração de Marcos não foi apenas sentimental; foi ministerial. Ele não apenas voltou ao convívio; voltou à utilidade.
Isso é muito importante para a vida da igreja. Restauração bíblica não é simplesmente fingir que nada aconteceu. Também não é apenas recolocar alguém em uma função por pressão emocional. Restauração envolve tempo, amadurecimento, reconstrução de confiança, evidência de fruto e retorno saudável ao serviço.
Marcos não ficou preso ao seu pior capítulo. Aquele que foi motivo de separação tornou-se, no fim, útil para o ministério. Sua trajetória mostra que uma falha real não precisa se tornar uma sentença permanente quando há graça, discipulado, amadurecimento e disposição para retomar o caminho do serviço.
6. A cronologia da restauração
A cronologia fortalece a leitura de que a restauração de Marcos foi um processo construído ao longo do tempo.
| Evento | Texto bíblico | Data aproximada | Significado |
|---|---|---|---|
| Marcos acompanha Barnabé e Saulo | At 12.25; 13.5 | c. 47 d.C. | Início da participação missionária |
| Marcos se afasta em Perge | At 13.13 | c. 47–48 d.C. | Falha na continuidade da missão |
| Paulo e Barnabé se separam por causa de Marcos | At 15.36-39 | c. 49–50 d.C. | Crise ministerial real |
| Paulo menciona Barnabé com honra | 1Co 9.6 | c. 53–55 d.C. | A crise não apagou a honra |
| Marcos reaparece no círculo de Paulo | Cl 4.10; Fm 24 | c. 60–62 d.C. | Sinais de restauração |
| Paulo pede a presença de Marcos | 2Tm 4.11 | c. 64–67 d.C. | Utilidade ministerial reconhecida |
Entre a crise de Atos 15 e a menção positiva de Marcos em Colossenses e Filemom, há aproximadamente uma década. Entre Atos 15 e 2 Timóteo 4.11, pode haver quinze anos ou mais. A restauração não parece ter sido imediata, mas foi real.
Essa observação é pastoralmente importante. Algumas restaurações não acontecem no dia seguinte. Às vezes, o tempo é parte do tratamento de Deus. O amadurecimento precisa ser provado. A confiança precisa ser reconstruída. A utilidade precisa ser novamente demonstrada. O fato de Deus restaurar alguém não significa que todo processo seja instantâneo.
Marcos nos ensina que Deus pode escrever capítulos novos na vida de pessoas que falharam. Mas sua história também nos ensina que restauração verdadeira envolve processo, paciência e fruto.
7. Demas: da cooperação ao abandono
A trajetória de Demas oferece um contraste forte com a de Marcos. Demas aparece inicialmente em um ambiente positivo. Em Colossenses 4.14, Paulo o menciona junto com Lucas. Em Filemom 24, Demas é listado entre os cooperadores de Paulo, ao lado de Marcos, Aristarco e Lucas.
Isso significa que Demas não começou como opositor. Ele fazia parte do círculo missionário paulino. Em algum momento, foi considerado cooperador. Seu nome aparece entre pessoas próximas do apóstolo, em contexto de serviço e comunhão ministerial.
Em Filemom 24, a palavra associada aos cooperadores é συνεργοί — synergoí, isto é, “companheiros de trabalho”, “colaboradores”, “cooperadores”. Demas, portanto, não era alguém distante da vida da igreja. Ele esteve perto da obra, perto de Paulo, perto de bons companheiros, perto da missão.
No entanto, em 2 Timóteo 4.10, Paulo escreve: “Porque Demas me abandonou, tendo amado o presente século, e foi para Tessalônica”.
A linguagem aqui é mais grave do que a usada para Marcos. No caso de Marcos, Atos registra que ele se afastou da equipe missionária e voltou para Jerusalém. No caso de Demas, Paulo interpreta a motivação do abandono: ele “amou o presente século”.
O verbo usado para “abandonou” vem de ἐγκαταλείπω — enkataleípō, que carrega a ideia de abandonar, deixar para trás, desertar. E a expressão “presente século” corresponde a τὸν νῦν αἰῶνα — ton nyn aiōna, isto é, “o presente século”, a ordem atual marcada por valores contrários à esperança do Reino de Deus.
O problema de Demas não é apresentado apenas como cansaço, medo, mudança de cidade ou transferência de campo ministerial. Paulo identifica uma inclinação do coração: Demas amou o mundo presente.
Aqui está a diferença decisiva entre Marcos e Demas. Marcos falhou em uma etapa da missão, mas depois reapareceu como útil. Demas serviu como cooperador, mas depois abandonou Paulo por uma mudança de afeição. Em Marcos, há uma falha que foi superada. Em Demas, há um amor que tomou outra direção.
8. Quadro dos termos gregos principais
| Texto | Termo grego | Transliteração | Sentido básico | Importância no estudo |
|---|---|---|---|---|
| Atos 15.39 | παροξυσμός | paroxysmós | Irritação intensa, desacordo agudo | Mostra que a crise entre Paulo e Barnabé foi real |
| Colossenses 4.10 | ἀνεψιός | anepsiós | Primo, parente próximo | Mostra o parentesco entre Marcos e Barnabé |
| 2 Timóteo 4.11 | εὔχρηστος | euchrēstos | Útil, proveitoso, adequado | Mostra a restauração prática de Marcos |
| Filemom 24 | συνεργοί | synergoí | Cooperadores, companheiros de trabalho | Mostra que Demas esteve no círculo ministerial |
| 2 Timóteo 4.10 | ἐγκαταλείπω | enkataleípō | Abandonar, desertar, deixar para trás | Mostra a gravidade da saída de Demas |
| 2 Timóteo 4.10 | τὸν νῦν αἰῶνα | ton nyn aiōna | O presente século | Mostra a motivação espiritual do abandono de Demas |
Esses termos ajudam a perceber que o contraste entre Marcos e Demas não é artificial. O próprio vocabulário bíblico aponta para naturezas diferentes de crise. Marcos está associado a falha, conflito e posterior utilidade. Demas está associado a abandono e amor ao presente século.
9. O critério paulino de discernimento
Ao comparar Marcos e Demas, percebe-se que Paulo exercia discernimento pastoral e ministerial com critérios. Ele não aplicava uma regra automática de exclusão definitiva para todos que falhavam. Mas também não tratava todo afastamento como se fosse apenas uma fraqueza momentânea.
O primeiro critério é a natureza da falha. Marcos parece representar uma falha de perseverança, maturidade ou prontidão ministerial. O texto não o acusa de amar o mundo, abandonar a fé ou rejeitar o evangelho. Demas, por outro lado, é descrito a partir de uma motivação espiritual grave: ele amou o presente século.
O segundo critério é a evidência posterior. Marcos reaparece no círculo de Paulo como cooperador e, finalmente, como útil para o ministério. A restauração é comprovada pelo fruto. Demas, ao contrário, desaparece da narrativa bíblica sob a marca do abandono. O texto não registra arrependimento, retorno ou restauração.
O terceiro critério é a direção do coração. Em Marcos, a história aponta para amadurecimento. Em Demas, aponta para deslocamento de amor. Essa distinção é pastoralmente essencial. Nem toda pessoa que falha deve ser descartada. Mas nem toda pessoa que se afasta deve ser imediatamente tratada como alguém apenas cansado ou ferido. Às vezes, o afastamento revela uma escolha mais profunda.
Paulo, portanto, não era rancoroso, porque recebeu Marcos de volta. Mas também não era ingênuo, porque discerniu o abandono de Demas. Ele sabia restaurar quando havia sinais de graça, amadurecimento e utilidade; mas também sabia nomear o abandono quando o coração se inclinava para o presente século.
10. Aplicações pastorais para a igreja
A comparação entre Marcos e Demas oferece uma palavra necessária para a igreja contemporânea.
10.1. Nem toda falha deve virar sentença definitiva
Existem pessoas que falham, mas ainda podem ser restauradas. Existem pessoas que tropeçam, mas não abandonaram Cristo. Existem obreiros que, em determinado momento, não estavam prontos para determinada responsabilidade, mas que, com tempo, discipulado e graça, tornam-se úteis para o ministério.
Marcos representa esses recomeços. Sua história ensina que uma falha não precisa definir toda a trajetória de uma pessoa. A graça de Deus pode amadurecer quem antes recuou. O tempo pode reconstruir confiança. O cuidado de alguém como Barnabé pode preservar uma vocação que outros talvez considerassem perdida.
A igreja precisa tomar cuidado para não transformar um episódio em identidade. Uma coisa é dizer: “Marcos falhou naquela missão”. Outra coisa é dizer: “Marcos é um fracassado”. O evangelho nos impede de reduzir uma pessoa ao seu pior momento quando há arrependimento, crescimento e fruto.
10.2. Restauração exige mais do que emoção
A restauração de Marcos não foi imediata nem superficial. Ela foi reconhecida ao longo do tempo. Isso ensina que restaurar alguém não é simplesmente recolocar a pessoa no mesmo lugar sem processo, sem cuidado e sem maturidade.
A graça não elimina a necessidade de sabedoria. Perdão e confiança não são exatamente a mesma coisa. O perdão deve ser oferecido com prontidão cristã; a confiança, porém, muitas vezes precisa ser reconstruída com tempo, verdade e frutos dignos de arrependimento.
Paulo não pediu Marcos por nostalgia. Ele pediu Marcos porque ele lhe era útil para o ministério. A utilidade comprovada mostrou que a restauração havia produzido fruto.
10.3. Nem todo afastamento é apenas ferida
Demas nos lembra que nem toda história termina em restauração. Há pessoas que estiveram próximas, serviram, caminharam com líderes fiéis e foram chamadas de cooperadoras, mas, em algum momento, o amor do coração mudou de direção.
O problema de Demas não foi apenas geográfico. Ele foi para Tessalônica, mas antes disso seu coração já havia se inclinado para o presente século. Seu deslocamento externo revelou um deslocamento interno.
Isso exige temor. Estar perto da missão não é o mesmo que permanecer fiel a Cristo. Estar perto de Paulo, Lucas, Marcos e outros cooperadores não impediu Demas de amar o presente século. Proximidade ministerial não substitui perseverança espiritual.
10.4. Líderes precisam unir graça e discernimento
A igreja precisa unir o coração de Barnabé e o discernimento de Paulo. Precisa acolher os que podem ser restaurados, mas também precisa reconhecer quando o abandono revela amor deslocado.
Graça sem discernimento pode se tornar ingenuidade. Discernimento sem graça pode se tornar dureza. A maturidade pastoral está em unir os dois: portas abertas para o arrependido, cuidado paciente com o fraco, seriedade diante do abandono e clareza diante do amor ao mundo.
A pergunta pastoral não deve ser apenas: “A pessoa errou?”. Outras perguntas precisam ser feitas:
| Pergunta pastoral | Propósito |
|---|---|
| O que esse erro revelou? | Discernir se foi fraqueza, imaturidade, rebeldia ou amor deslocado |
| Houve arrependimento? | Identificar quebrantamento real |
| Houve crescimento? | Observar amadurecimento ao longo do tempo |
| Houve retorno ao serviço fiel? | Verificar fruto prático |
| Houve reconstrução de confiança? | Avaliar restauração relacional e ministerial |
| Ou houve abandono, endurecimento e amor ao presente século? | Nomear com seriedade quando o coração tomou outro caminho |
11. Síntese pastoral
Marcos falhou, mas foi restaurado.
Demas cooperou, mas abandonou.
Barnabé investiu, mesmo em meio à discordância.
Paulo discerniu, sem apagar a possibilidade de recomeço.
O caminho da restauração é o caminho da utilidade recuperada. O caminho do afastamento é o caminho do amor deslocado. Entre Marcos e Demas, Paulo nos ensina que a vida cristã exige graça para recomeçar, maturidade para esperar o tempo da restauração e discernimento para reconhecer quando o coração tomou outro caminho.
A igreja não deve ser uma comunidade que descarta rapidamente os quebrados, nem uma comunidade que romantiza o abandono. Ela deve ser um povo que restaura com graça, corrige com amor, espera com paciência e discerne com temor.
12. Conclusão
A trajetória de Marcos e Demas mostra que o discernimento paulino não era mecânico, mas espiritual, pastoral e missionário. Paulo não descartou Marcos para sempre por causa de uma falha anterior. Anos depois, reconheceu sua utilidade e pediu sua presença. Isso demonstra que o apóstolo cria na possibilidade de restauração, desde que houvesse evidência de amadurecimento e serviço fiel.
Por outro lado, Paulo não romantizou o abandono de Demas. Ao afirmar que Demas o abandonou por amar o presente século, Paulo identificou uma ruptura mais profunda do que uma simples divergência ministerial. Demas não é apresentado como alguém em processo de restauração, mas como alguém cuja afeição se voltou para aquilo que é incompatível com a fidelidade ao evangelho.
Assim, o contraste entre Marcos e Demas ajuda a igreja a discernir melhor seus relacionamentos e processos ministeriais. Há falhas que precisam de correção, tempo e restauração. Há abandonos que precisam ser nomeados com seriedade. Há pessoas que devem ser acolhidas novamente quando demonstram fruto de transformação. Há situações em que a comunhão ministerial não pode ser sustentada sem arrependimento e retorno à fidelidade.
Paulo não era radical a ponto de impedir recomeços, nem ingênuo a ponto de ignorar o amor ao mundo. Ele sabia que a graça restaura Marcos, mas também sabia que o presente século pode seduzir Demas. Esse discernimento continua necessário para a igreja: restaurar os quebrantados, esperar o amadurecimento dos fracos e reconhecer, com temor, quando alguém escolheu outro caminho.
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Nota editorial
Antes da publicação final, recomenda-se conferir as páginas específicas das obras consultadas, especialmente quando forem usadas citações diretas ou afirmações atribuídas a comentaristas específicos. Quando o texto fizer apenas uso geral das obras, a bibliografia final é suficiente; quando houver citação direta ou paráfrase muito próxima, o ideal é indicar autor, ano e página no corpo do estudo ou em nota.
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