Romanos
11: remanescente, oliveira, joio, doxologia e a misericórdia de Deus
Introdução
Romanos 11 fecha uma das
seções mais densas da carta aos Romanos. Em Romanos 9–11, Paulo enfrenta uma
pergunta dolorosa: se Israel recebeu as alianças, a Lei, o culto, as promessas
e os patriarcas, como explicar que grande parte de Israel não reconheceu Jesus
como o Messias? A incredulidade de Israel significaria que Deus falhou? A
promessa de Deus caiu por terra? Deus rejeitou o seu povo?
A resposta de Paulo é firme: não.
Deus não rejeitou definitivamente Israel. Há um remanescente segundo a graça,
há um propósito na inclusão dos gentios, há uma advertência contra a soberba da
igreja gentílica, há esperança futura para Israel e há uma doxologia que coloca
toda a história da salvação debaixo da sabedoria de Deus (BÍBLIA, 1993; MOO,
1996; SCHREINER, 1998).
Romanos 11 não é apenas um
capítulo sobre Israel. É também um espelho para a igreja. Ele nos ensina sobre
graça, humildade, perseverança, juízo, misericórdia, falsa segurança religiosa
e verdadeira adoração. O texto nos obriga a olhar para Deus, para Israel, para
os gentios, para a igreja e para o nosso próprio coração.
1. Deus
não rejeitou o seu povo: o remanescente segundo a graça
Romanos 11.1-6
Paulo começa com uma
pergunta direta:
“Pergunto, pois: terá
Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum!” Romanos 11.1
A pergunta nasce do
problema discutido nos capítulos anteriores. Se muitos israelitas rejeitaram
Cristo, alguém poderia concluir que Deus rejeitou Israel. Paulo responde com a
expressão grega μὴ γένοιτο (mē genoito), uma negação forte, que
pode ser entendida como “de modo nenhum”, “jamais”, “que isso nunca aconteça”.
Para Paulo, dizer que Deus rejeitou totalmente Israel seria atacar a fidelidade
de Deus (BAUER; DANKER, 2000; CRANFIELD, 1979).
O verbo usado para
“rejeitou” vem de ἀπωθέω (apōtheō), que significa repelir,
afastar, empurrar para longe. Paulo nega que Deus tenha empurrado Israel para
fora de seu plano redentor. A prova imediata é o próprio Paulo:
“Porque eu também sou
israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim.” Romanos 11.1
Paulo não fala de
Israel como um observador distante. Ele mesmo é israelita, descendente de
Abraão e membro da tribo de Benjamim. Sua conversão é evidência viva de que
Deus continua salvando judeus. A existência de Paulo como apóstolo de Cristo
prova que a incredulidade de muitos em Israel não significa rejeição total de
Israel (MOO, 1996; DUNN, 1988).
Em seguida, Paulo
afirma:
“Deus não rejeitou o
seu povo, a quem de antemão conheceu.” Romanos 11.2
A expressão “de antemão
conheceu” vem do grego προγινώσκω (proginōskō), que envolve mais
que simples previsão de fatos. No pensamento bíblico, conhecer pode carregar
sentido relacional e pactual. No Antigo Testamento, o verbo hebraico יָדַע
(yadaʿ) pode indicar conhecimento pessoal, relacional, de aliança.
Assim, quando Paulo diz que Deus “conheceu” o seu povo, ele se refere ao
relacionamento de eleição e compromisso que Deus estabeleceu com Israel (BROWN;
DRIVER; BRIGGS, 1907; FITZMYER, 1993).
Paulo então recorre ao
episódio de Elias. O profeta pensava estar sozinho:
“Senhor, mataram os
teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei.” Romanos 11.3
Mas Deus respondeu:
“Reservei para mim sete
mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal.” Romanos 11.4
Essa citação retoma 1
Reis 19. Elias olhava para a apostasia nacional e imaginava que a fidelidade
havia desaparecido. Mas Deus revela que preservou para si um povo. Esse é o
princípio do remanescente: mesmo em tempos de crise, Deus conserva um povo fiel
pela sua graça (BÍBLIA, 1993; HAYS, 1989).
Paulo aplica esse
princípio ao seu próprio tempo:
“Assim, pois, também
agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça.”
Romanos 11.5
A palavra grega para
“remanescente” é λεῖμμα (leimma), aquilo que resta, aquilo que é
preservado. No Antigo Testamento, esse conceito aparece em termos hebraicos
como שְׁאָר (she’ar) e שְׁאֵרִית (she’erit), usados
para falar do povo preservado por Deus em meio ao juízo, à apostasia e ao
exílio (BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1907).
Mas Paulo acrescenta
uma frase decisiva: “segundo a eleição da graça”. O remanescente não
existe porque era moralmente superior. Não existe porque foi mais inteligente
ou mais digno. Existe porque Deus preservou. A eleição, ἐκλογή (eklogē),
está ligada à graça, χάρις (charis). Por isso, Paulo conclui:
“E, se é pela graça, já
não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.” Romanos 11.6
Aqui está uma das
grandes aplicações do texto: quem permanece, permanece pela graça. O
remanescente verdadeiro não diz: “Fiquei de pé porque sou melhor.” Ele diz:
“Fui preservado porque Deus teve misericórdia.”
Essa verdade também
toca a igreja. Em toda comunidade visível, pode haver muitos que participam
externamente da religião, mas Deus conhece aqueles que são realmente seus. O
princípio do remanescente nos lembra que a igreja não deve confiar em
aparência, tradição ou número, mas na graça preservadora de Deus. Jesus já
havia advertido que nem todo o que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos
céus (Mt 7.21). Paulo também declara: “O Senhor conhece os que lhe pertencem”
(2Tm 2.19). Assim, o remanescente de Romanos 11 ilumina a vida da igreja: Deus
preserva os seus, mesmo quando a realidade visível parece confusa (BÍBLIA,
1993; SCHREINER, 1998).
Aplicação: quando
olhamos para a decadência espiritual, para igrejas frias, para famílias
afastadas, para pessoas que abandonaram a fé, podemos cair no desânimo de
Elias: “Só eu fiquei.” Romanos 11 nos corrige. Deus sempre sabe mais do que
nós. Ele preserva os seus. Mas essa doutrina não deve produzir orgulho; deve
produzir oração, perseverança e humildade.
2. A
eleição alcançou alguns, e os demais foram endurecidos
Romanos 11.7-10
Paulo continua:
“Que diremos, pois? O
que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram
endurecidos.” Romanos 11.7
Israel buscava
justiça, mas grande parte a buscava de modo errado, como Paulo já havia
explicado em Romanos 9.30–10.4. O problema não era zelo religioso em si, mas
zelo sem entendimento. Israel buscava estabelecer sua própria justiça e não se
submeteu à justiça de Deus revelada em Cristo (BÍBLIA, 1993; MOO, 1996).
A palavra
“endurecidos” vem do grego πωρόω (pōroō), que transmite a ideia
de tornar insensível, endurecer, embotar. Paulo não trata esse endurecimento
como simples falta de informação, mas como juízo espiritual. A incredulidade
persistente leva a uma condição de insensibilidade diante da revelação divina
(BAUER; DANKER, 2000; CRANFIELD, 1979).
Paulo cita o Antigo
Testamento:
“Deus lhes deu
espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao
dia de hoje.” Romanos 11.8
A expressão “espírito
de entorpecimento” vem do grego κατάνυξις (katanyxis), indicando
torpor, estupor, uma espécie de incapacidade espiritual de responder
corretamente. Paulo combina ecos de Deuteronômio 29.4 e Isaías 29.10, mostrando
que esse padrão já havia aparecido na história de Israel: quando o povo rejeita
continuamente a Palavra de Deus, pode ser entregue a uma condição de cegueira
judicial (HAYS, 1989; FITZMYER, 1993).
Paulo também cita o
Salmo 69:
“Torne-se-lhes a mesa
em laço e armadilha, em tropeço e punição.” Romanos 11.9
A “mesa” deveria ser
lugar de alimento, comunhão e bênção. Mas, no juízo de Deus, aquilo que deveria
conduzir à vida pode se tornar ocasião de tropeço. Os privilégios espirituais
de Israel — Lei, culto, promessas e identidade pactual — quando separados da fé
no Messias, tornaram-se ocasião de endurecimento (DUNN, 1988; SCHREINER, 1998).
A aplicação para a
igreja é séria. Privilégios religiosos não substituem fé viva. Uma pessoa pode
ter Bíblia, frequentar culto, conhecer doutrina, participar de ministérios e,
ainda assim, resistir a Cristo. Romanos 11 nos chama a examinar o coração. O perigo
não está apenas fora da religião; muitas vezes está dentro dela. O
endurecimento pode acontecer justamente quando alguém ouve muito e obedece
pouco.
Por isso, o cristão
comum deve orar: “Senhor, não permitas que minha familiaridade com as coisas
santas me torne insensível ao Santo.” Quanto maior o privilégio espiritual,
maior a responsabilidade diante de Deus.
3. A
queda de Israel e a salvação dos gentios
Romanos 11.11-15
Paulo faz outra
pergunta:
“Pergunto, pois:
porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” Romanos 11.11
Israel tropeçou, mas
Paulo nega que esse tropeço tenha como finalidade uma queda definitiva. O
tropeço é real; a rejeição do Messias é grave. Mas o plano de Deus não termina
na queda. Deus incorpora até a incredulidade humana dentro de um propósito
maior de misericórdia (MOO, 1996; WRIGHT, 2013).
Paulo explica:
“Mas, pela
transgressão deles, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes.”
Romanos 11.11
A palavra
“transgressão” traduz παράπτωμα (paraptōma), que pode significar
falta, queda, passo em falso. A rejeição de Israel abriu caminho para a
expansão missionária entre os gentios. Em Atos, esse movimento aparece
repetidamente: Paulo anuncia primeiro nas sinagogas; diante da rejeição de
muitos judeus, o evangelho avança entre os gentios (BÍBLIA, 1993; DUNN, 1988).
Mas esse avanço entre
os gentios tem também um propósito em relação a Israel: provocar ciúme. O verbo
grego παραζηλόω (parazēloō) significa despertar zelo ou ciúme. O
pano de fundo está em Deuteronômio 32.21, onde Deus diz que provocaria Israel a
ciúmes por meio de um povo que não era povo. Paulo vê a salvação dos gentios
como parte desse movimento misterioso: as nações recebem as bênçãos do Messias
de Israel, e isso deveria despertar Israel para reconhecer seu próprio Cristo
(HAYS, 1989; SCHREINER, 1998).
Em seguida, Paulo
argumenta:
“Ora, se a
transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em
riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude!” Romanos 11.12
A lógica é do menor
para o maior. Se a queda de Israel trouxe riqueza espiritual aos gentios, sua
restauração trará bênção ainda maior. A palavra “plenitude” vem de πλήρωμα
(plērōma), indicando plenitude, completude ou cumprimento. Paulo enxerga
a história da salvação em movimento: queda, inclusão dos gentios, provocação de
Israel, restauração e plenitude (BAUER; DANKER, 2000; CRANFIELD, 1979).
Ele continua:
“Porque, se o fato de
terem sido eles rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu
restabelecimento, senão vida dentre os mortos?” Romanos 11.15
Essa expressão —
“vida dentre os mortos” — pode apontar para uma grande renovação espiritual
associada à restauração de Israel ou para o horizonte escatológico da
ressurreição final. Em ambos os casos, Paulo está dizendo que o futuro de
Israel está ligado a uma manifestação poderosa da vida de Deus (FITZMYER, 1993;
MOO, 1996).
Aplicação: Deus sabe
transformar perdas em caminhos de misericórdia. Isso não torna o pecado bom. A
incredulidade continua sendo pecado. Mas Romanos 11 mostra que o mal não é
soberano. Deus é soberano. Aquilo que parece interrupção pode ser usado por Deus
como instrumento para ampliar sua misericórdia.
Na vida cristã comum,
essa verdade consola. Nem toda porta fechada é o fim do caminho. Nem toda
rejeição impede o plano de Deus. O Senhor pode usar crises, perdas e desvios
humanos para conduzir sua obra de maneira mais profunda do que conseguimos
enxergar.
4. A
oliveira: raiz santa, ramos naturais e ramos enxertados
Romanos 11.16-24
Paulo introduz duas
imagens:
“E, se forem santas
as primícias da massa, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a raiz,
também os ramos o serão.” Romanos 11.16
A primeira imagem vem
das primícias. A primeira porção consagrada a Deus representava o todo. A
segunda imagem é a da raiz e dos ramos. A raiz provavelmente aponta para os
patriarcas e para as promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó. Se a raiz é
santa, os ramos pertencem a uma história separada por Deus (CRANFIELD, 1979;
SCHREINER, 1998).
Depois Paulo
desenvolve a imagem da oliveira:
“Se, porém, alguns
dos ramos foram quebrados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio
deles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories
contra os ramos.” Romanos 11.17-18
A oliveira representa
o povo de Deus em sua continuidade histórica, enraizado nas promessas feitas
aos patriarcas. Os ramos naturais são judeus. Os ramos de oliveira brava são
gentios. O verbo “enxertar” vem de ἐγκεντρίζω (enkentrizō), termo
agrícola usado para inserir um ramo em uma árvore. Paulo usa essa imagem para
ensinar que os gentios não criaram uma nova árvore. Eles foram introduzidos na
história da promessa (BAUER; DANKER, 2000; DUNN, 1988).
Por isso, Paulo
adverte:
“Não és tu que
sustentas a raiz, mas a raiz, a ti.” Romanos 11.18
Essa frase é
fundamental para a igreja. A fé cristã não começa nos gentios. Jesus é o
Messias de Israel. Os apóstolos eram judeus. As Escrituras que moldaram a
igreja primitiva eram as Escrituras de Israel. A nova aliança cumpre promessas
feitas dentro da história de Israel. Portanto, a igreja gentílica não deve
tratar Israel com desprezo. O evangelho não autoriza antissemitismo,
triunfalismo ou arrogância religiosa (MOO, 1996; WRIGHT, 2013).
Paulo antecipa um
raciocínio equivocado:
“Dirás, pois: Alguns
ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado.” Romanos 11.19
E responde:
“Bem! Pela sua
incredulidade foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te
ensoberbeças, mas teme.” Romanos 11.20
Essa é uma das
maiores advertências do capítulo. O gentio permanece pela fé, não por
superioridade. Israel foi quebrado por incredulidade; os gentios não devem
imaginar que estão imunes ao mesmo perigo. O tom pastoral de Paulo é claro: a
graça recebida nunca deve produzir arrogância, mas temor reverente (SCHREINER,
1998; FITZMYER, 1993).
Paulo então diz:
“Considerai, pois, a
bondade e a severidade de Deus.” Romanos 11.22
“Bondade” é χρηστότης
(chrēstotēs), benignidade, generosidade. “Severidade” é ἀποτομία
(apotomia), rigor, corte. O cristão precisa contemplar as duas
realidades. Deus é bom, mas não é permissivo. Deus é misericordioso, mas não
trata a incredulidade como coisa pequena (BAUER; DANKER, 2000).
Aplicação: muitos
cristãos gostam de falar da bondade de Deus, mas evitam sua severidade. Outros
falam da severidade de Deus sem refletir sua bondade. Romanos 11 nos chama a
manter as duas verdades juntas. A bondade de Deus nos atrai ao arrependimento;
a severidade de Deus nos livra da presunção.
Paulo conclui essa
seção com esperança:
“Eles também, se não
permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os
enxertar de novo.” Romanos 11.23
Israel não está além
do alcance da misericórdia. O problema é a incredulidade; a solução é o poder
de Deus. Os ramos naturais podem ser reenxertados em sua própria oliveira. A
última palavra não é a queda, mas a possibilidade da restauração pela graça (MOO,
1996; DUNN, 1988).
5. O
mistério: endurecimento parcial, plenitude dos gentios e salvação de Israel
Romanos 11.25-32
Paulo agora revela o
que chama de mistério:
“Porque não quero,
irmãos, que ignoreis este mistério, para que não sejais presumidos em vós
mesmos.” Romanos 11.25
A palavra “mistério”
vem de μυστήριον (mystērion). Em Paulo, mistério não significa
algo irracional ou ocultista, mas uma realidade do plano de Deus antes
escondida e agora revelada. Aqui, o mistério envolve a relação entre Israel e
gentios no desenvolvimento da história da salvação (BAUER; DANKER, 2000;
SCHREINER, 1998).
O objetivo pastoral
de Paulo é claro: “para que não sejais presumidos”. A escatologia paulina não
foi dada para alimentar curiosidade arrogante, mas para destruir a soberba dos
gentios.
Paulo explica o
mistério:
“Veio endurecimento
em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios.” Romanos 11.25
Três expressões são
essenciais.
Primeiro, o
endurecimento é “em parte”. Isso significa que não é total. Há judeus
crentes, como Paulo e o remanescente mencionado no início do capítulo.
Segundo, há um “até
que”. Isso mostra que o endurecimento não deve ser entendido como palavra
final absoluta.
Terceiro, há a “plenitude
dos gentios”, expressão que indica a entrada das nações no povo de Deus
conforme o propósito divino (CRANFIELD, 1979; MOO, 1996).
Então Paulo declara:
“E, assim, todo o
Israel será salvo.” Romanos 11.26
Essa é uma das frases
mais discutidas da carta. Há três interpretações principais. Alguns entendem
“todo o Israel” como o povo total de Deus, formado por judeus e gentios
crentes. Outros entendem como o conjunto do remanescente judeu salvo ao longo
da história. Uma terceira leitura, bastante forte no fluxo do capítulo, entende
“todo o Israel” como Israel étnico em sentido corporativo, alcançado por uma
futura obra ampla de misericórdia divina (MOO, 1996; SCHREINER, 1998; FITZMYER,
1993).
O contexto favorece
essa terceira leitura, porque Paulo vem distinguindo Israel e gentios, ramos
naturais e ramos enxertados, endurecimento parcial de Israel e plenitude dos
gentios. Isso não significa salvação automática por etnia. Paulo já deixou
claro que os ramos naturais só serão reenxertados se não permanecerem na
incredulidade. A salvação continua sendo em Cristo, pela fé e pela misericórdia
de Deus (BÍBLIA, 1993; DUNN, 1988).
Paulo fundamenta essa
esperança nas Escrituras:
“Virá de Sião o
Libertador, ele apartará de Jacó as impiedades.” Romanos 11.26
A figura do
Libertador remete ao redentor prometido. No hebraico, a ideia de redentor se
relaciona ao termo גֹּאֵל (go’el), aquele que resgata. O Messias
não apenas perdoa pecados; ele remove impiedades. A restauração de Israel é
apresentada como obra do Libertador (BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1907; HAYS, 1989).
Paulo continua:
“Esta é a minha
aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.” Romanos 11.27
“Aliança”, no
hebraico, é בְּרִית (berit), pacto, compromisso solene. A
esperança de Paulo está enraizada na fidelidade de Deus à aliança. Deus não
esquece suas promessas. Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (BROWN;
DRIVER; BRIGGS, 1907; WRIGHT, 2013).
Paulo então resume a
tensão:
“Quanto ao evangelho,
são eles inimigos por vossa causa; quanto, porém, à eleição, amados por causa
dos patriarcas.” Romanos 11.28
Essa frase exige
equilíbrio. Paulo não nega a gravidade da rejeição judaica ao evangelho. Quanto
ao evangelho, muitos se colocaram como inimigos. Mas, quanto à eleição
histórica ligada aos patriarcas, continuam sendo amados. A igreja deve manter
as duas verdades: não negar Cristo e não desprezar Israel (MOO, 1996;
CRANFIELD, 1979).
Em seguida vem uma
das afirmações mais importantes do capítulo:
“Porque os dons e a
vocação de Deus são irrevogáveis.” Romanos 11.29
“Irrevogáveis” vem de
ἀμεταμέλητα (ametamelēta), aquilo de que Deus não se arrepende,
aquilo que não é retirado por mudança de intenção. Deus não abandona seu
propósito pactual. A infidelidade humana não anula a fidelidade divina (BAUER;
DANKER, 2000; SCHREINER, 1998).
Paulo conclui:
“Porque Deus a todos
encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos.”
Romanos 11.32
“Encerrou” vem de συγκλείω
(synkleiō), fechar, confinar. “Desobediência” é ἀπείθεια (apeitheia),
recusa de crer e obedecer. Paulo afirma que judeus e gentios foram colocados
debaixo da mesma condição: todos são desobedientes, todos carecem de
misericórdia, todos dependem da graça (BAUER; DANKER, 2000; FITZMYER, 1993).
Isso não ensina
universalismo automático. Paulo não está dizendo que todos serão salvos
independentemente da fé. Ele está dizendo que Deus conduziu judeus e gentios à
mesma conclusão: ninguém entra no Reino por mérito, etnia, tradição ou
privilégio. A salvação é misericórdia.
Aplicação: a igreja
precisa abandonar qualquer senso de superioridade. O judeu não pode se gloriar
na etnia. O gentio não pode se gloriar contra Israel. O cristão não pode se
gloriar em sua tradição denominacional, em sua doutrina ou em sua história pessoal.
Todos foram encerrados na desobediência para que todos saibam que só existe
salvação pela misericórdia de Deus.
6. O
remanescente, o joio e a igreja visível
A doutrina do remanescente não termina no Antigo Testamento nem se
limita à questão de Israel. Ela toca a igreja porque o Novo Testamento
reconhece uma diferença entre a comunidade visível e aqueles que pertencem
verdadeiramente ao Senhor.
Jesus ensina isso em Mateus 13, na parábola do joio e do trigo:
“O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no
seu campo.” Mateus 13.24
Depois, enquanto os homens dormiam, o inimigo semeou joio no meio do
trigo. A palavra grega para joio é ζιζάνια (zizania), uma planta
parecida com o trigo em seu crescimento inicial, mas sem o mesmo fruto. O
trigo, σῖτος (sitos), representa aquilo que é verdadeiro,
frutífero e próprio da colheita (BAUER; DANKER, 2000).
Na explicação de Jesus:
“O campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são
os filhos do maligno.” Mateus 13.38
O campo é o mundo, mas a parábola também ilumina a realidade visível
do Reino na história. Onde o Reino se manifesta, há trigo verdadeiro e há joio.
Há fé genuína e há aparência. Há filhos do Reino e há falsa pertença.
A relação com Romanos 11 é importante. O remanescente mostra que
Deus preserva os seus. A parábola do joio mostra que, até a colheita, essa
preservação acontece em meio a uma realidade misturada. Nem todos que parecem
trigo são trigo. Nem todos que estão próximos da comunidade da fé pertencem
verdadeiramente a Cristo.
Mas Jesus também adverte contra uma atitude precipitada:
“Não; para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o
trigo.” Mateus 13.29
A separação final pertence ao Senhor. Isso não elimina a disciplina
bíblica da igreja quando há pecado claro e público. Mas impede a pretensão de
julgar perfeitamente o coração de todos. A igreja deve exercer discernimento
sem assumir o lugar de Deus (BÍBLIA, 1993; MOO, 1996; SCHREINER, 1998).
Essa conexão entre remanescente e joio corrige dois erros.
O primeiro erro é a ingenuidade. Ela diz: “Todos que estão no
ambiente religioso são verdadeiros.” Jesus nega isso.
O segundo erro é o elitismo. Ele diz: “Nós sabemos perfeitamente
quem é trigo e quem é joio.” Jesus também nega isso.
O cristão comum precisa aprender a viver entre essas duas verdades.
Ele não deve ser ingênuo com a aparência religiosa, mas também não deve ser
arrogante. O chamado é para examinar a si mesmo, permanecer em Cristo, produzir
fruto e confiar que o Senhor conhece os que lhe pertencem.
O remanescente verdadeiro nunca se apresenta dizendo: “Somos os
melhores.” Ele confessa: “Fomos preservados pela graça.” Essa é a diferença
entre santidade e soberba. A santidade depende de Deus; a soberba depende da
comparação com os outros.
7. A
doxologia: a teologia termina em adoração
Romanos 11.33-36
Depois de toda a
argumentação, Paulo não termina com um gráfico escatológico nem com uma
conclusão fria. Ele termina adorando:
“Ó profundidade da
riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” Romanos 11.33
A palavra
“profundidade” vem de βάθος (bathos), indicando algo imenso,
insondável, impossível de ser medido completamente. Paulo contempla a sabedoria
de Deus na história da salvação e reconhece que os caminhos divinos ultrapassam
a capacidade humana de compreensão total (BAUER; DANKER, 2000; CRANFIELD,
1979).
Ele continua:
“Quão insondáveis são
os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” Romanos 11.33
A doxologia não
significa abandono da razão. Paulo argumentou cuidadosamente em Romanos 9–11.
Ele citou as Escrituras, explicou a eleição, tratou da incredulidade, falou do
endurecimento, da salvação dos gentios, da restauração de Israel e da
misericórdia de Deus. Mas, depois de ir até onde a revelação permite, ele se
curva diante do mistério.
Isso é importante
para a igreja. A teologia que não termina em adoração está incompleta. O estudo
bíblico que aumenta orgulho, dureza e arrogância perdeu o rumo. Quanto mais
conhecemos os caminhos de Deus, mais deveríamos dizer: “Senhor, tu és mais
sábio do que eu.”
Paulo cita a
Escritura:
“Quem, pois, conheceu
a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” Romanos 11.34
E também:
“Ou quem primeiro deu
a ele para que lhe venha a ser restituído?” Romanos 11.35
Ninguém aconselha
Deus. Ninguém coloca Deus em dívida. Ninguém entrega algo a Deus primeiro para
depois cobrar dele. A criatura sempre recebe antes de responder. Tudo que temos
vem dele.
Então Paulo fecha com
uma das declarações mais profundas da Bíblia:
“Porque dele, e por
meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.
Amém!” Romanos 11.36
Essa frase é o
coração da doxologia.
Dele: Deus é a origem de todas as coisas. Por meio dele: Deus
sustenta e conduz todas as coisas. Para ele: Deus é o alvo final de
todas as coisas.
A história de Israel
é dele. A salvação dos gentios é por meio dele. A igreja existe para ele. O
remanescente é preservado por ele. A restauração final glorifica a ele. A
misericórdia tem origem nele, acontece por meio dele e retorna em glória para
ele (MOO, 1996; WRIGHT, 2013).
Aplicação: a
doxologia nos ensina como terminar nossas reflexões difíceis. Nem toda pergunta
terá uma resposta completa nesta vida. Nem todo mistério será desvendado agora.
Mas o cristão pode descansar no caráter de Deus. O Deus que governa Israel, os
gentios, a igreja, a história e o juízo também governa a nossa vida.
Quando não entendemos
os caminhos, adoramos o Deus dos caminhos.
8. Integração
com a teodiceia paulina
Romanos 11 é parte da teodiceia paulina. Teodiceia, aqui, significa
a defesa da justiça, fidelidade e sabedoria de Deus diante do problema da
incredulidade de Israel e da aparente tensão entre promessa e história.
A pergunta por trás de Romanos 9–11 é: Deus foi infiel? A Palavra de
Deus falhou? Paulo responde que não.
Primeiro, Deus não falhou porque sempre houve um remanescente
segundo a graça. A promessa nunca significou que todo descendente físico seria
salvo automaticamente. Deus preserva um povo pela sua eleição graciosa (Rm
11.1-6; MOO, 1996).
Segundo, Deus não foi injusto porque o endurecimento de Israel está
ligado à incredulidade. Israel ouviu, recebeu testemunho e resistiu. O
endurecimento é juízo, não arbitrariedade divina sem responsabilidade humana
(Rm 11.7-10; SCHREINER, 1998).
Terceiro, Deus não abandonou Israel porque o endurecimento é parcial
e tem um limite dentro do plano divino: “até que haja entrado a plenitude dos
gentios” (Rm 11.25). Há um remanescente agora e uma esperança futura ligada à
misericórdia de Deus (CRANFIELD, 1979; FITZMYER, 1993).
Quarto, Deus transformou a queda em ocasião de salvação para os
gentios. A rejeição de muitos em Israel não paralisou a missão; abriu caminho
para que as nações fossem alcançadas (Rm 11.11-15; DUNN, 1988).
Quinto, Deus continua fiel às promessas feitas aos patriarcas. Os
dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. A eleição histórica de Israel
permanece significativa no plano de Deus (Rm 11.28-29; WRIGHT, 2013).
Sexto, Deus encerrou todos na desobediência para usar de
misericórdia para com todos. Judeus e gentios são nivelados não pela dignidade,
mas pela necessidade. Todos pecaram. Todos precisam de misericórdia. Ninguém
será salvo por mérito (Rm 11.32; BÍBLIA, 1993).
A teodiceia de Paulo não termina com explicação abstrata, mas com
doxologia. Isso é decisivo. Paulo não tenta domesticar Deus. Ele não coloca
Deus no banco dos réus. Ele mostra que a história da salvação é complexa,
misteriosa e, ao mesmo tempo, fiel ao caráter de Deus. Depois, ele adora.
9.
Aplicações práticas para o cristão comum
9.1. Deus preserva os seus
Romanos 11 consola
o crente que se sente sozinho. Elias pensou que era o único fiel, mas Deus
havia preservado sete mil. Muitas vezes, o cristão olha ao redor e vê frieza,
confusão, abandono da fé e infidelidade. Mas Deus conhece os seus. A igreja
pode parecer fraca, mas Deus não perdeu o controle.
A aplicação é
simples: não confunda a sua percepção limitada com a realidade total. Deus
sempre vê mais do que nós.
9.2. A graça elimina a soberba
O remanescente
é segundo a graça. Os gentios foram enxertados pela fé. Israel só será
reenxertado se não permanecer na incredulidade. Tudo é misericórdia.
O cristão não
tem base para se considerar superior. Não somos salvos porque entendemos mais,
merecemos mais ou somos melhores. Permanecemos porque Deus nos sustentou.
A pergunta
correta não é: “Por que tantos caíram?” A pergunta correta é: “Senhor, por que
tiveste misericórdia de mim?”
9.3. Aparência religiosa
não basta
O
endurecimento de Israel adverte a igreja. Privilégios espirituais podem se
transformar em tropeço quando não conduzem à fé obediente. É possível ter muita
religião e pouco arrependimento. É possível conhecer linguagem bíblica e não se
render a Cristo.
O cristão
comum deve examinar o coração: minha fé é viva? Minha doutrina me leva à
obediência? Meu conhecimento bíblico me torna mais humilde ou mais arrogante?
9.4. A igreja
deve viver com discernimento e humildade
A
parábola do joio e do trigo ensina que haverá mistura até a colheita. Isso
exige discernimento. Nem toda aparência é fruto. Nem toda fala religiosa é
conversão.
Mas
a parábola também exige humildade. A separação final pertence a Cristo. A
igreja não deve ser ingênua, mas também não deve assumir o papel do Juiz final.
9.5. A igreja
gentílica não deve desprezar Israel
Romanos
11 combate qualquer arrogância contra Israel. Os gentios foram enxertados na
oliveira; não sustentam a raiz. A igreja deve reconhecer que a salvação vem do
Deus de Israel, por meio do Messias de Israel, conforme as promessas feitas a
Israel.
Amar
Israel não significa negar que Jesus é o único Salvador. Anunciar Cristo não
significa desprezar o povo judeu. Paulo mantém as duas verdades juntas.
9.6. A bondade e
a severidade de Deus devem moldar nossa fé
Paulo
manda considerar a bondade e a severidade de Deus. A bondade nos consola; a
severidade nos desperta. A bondade nos chama ao descanso; a severidade nos
chama ao temor.
Uma
fé saudável não transforma Deus em ídolo sentimental nem em tirano distante. O
Deus bíblico é santo e misericordioso, severo contra a incredulidade e
abundante em graça para salvar.
9.7. A teologia deve
terminar em adoração
Romanos
11 termina em doxologia porque esse é o destino correto da doutrina. Estudar
eleição, remanescente, endurecimento, Israel, gentios, igreja e juízo deve nos
tornar mais reverentes.
A
verdadeira exposição bíblica não termina apenas com informação. Ela termina com
o coração rendido diante de Deus.
Conclusão
Romanos
11 nos ensina que Deus não rejeitou definitivamente Israel, que há um
remanescente segundo a graça, que os gentios foram enxertados na oliveira, que
a igreja deve fugir da soberba, que o endurecimento de Israel é parcial, que a
misericórdia de Deus alcança judeus e gentios, e que toda essa história termina
na glória de Deus.
O
remanescente mostra que Deus preserva os seus. O joio mostra que a história
presente é marcada por mistura e aparência. A oliveira mostra que os gentios
participam das promessas sem substituir arrogantemente a raiz. A doxologia
mostra que os caminhos de Deus são mais profundos que nossa compreensão.
Portanto,
Romanos 11 chama o cristão comum a viver com humildade, discernimento,
esperança e adoração.
Humildade,
porque permanecemos pela graça. Discernimento, porque nem toda aparência
religiosa é trigo. Esperança, porque Deus ainda conduz a história. Adoração,
porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas.
“A
ele, pois, a glória eternamente. Amém!” Romanos 11.36
Referências
bibliográficas em padrão ABNT
BAUER, Walter; DANKER, Frederick W. A Greek-English Lexicon of
the New Testament and Other Early Christian Literature. 3.
ed. Chicago: University of Chicago Press, 2000.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Almeida Revista e Atualizada.
2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BROWN, Francis; DRIVER, Samuel Rolles; BRIGGS, Charles Augustus. A
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1907.
CRANFIELD, Charles E. B. A Critical and Exegetical Commentary on
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DUNN, James D. G. Romans 9–16. Dallas: Word Books, 1988. v.
38B. Série: Word Biblical Commentary.
FITZMYER, Joseph A. Romans: A New Translation with Introduction
and Commentary. New York: Doubleday, 1993. Série: Anchor Bible, v. 33.
HAYS, Richard B. Echoes of Scripture in the Letters of Paul.
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MOO, Douglas J. The Epistle to the Romans. Grand Rapids:
William B. Eerdmans, 1996. Série: The New International Commentary on the New
Testament.
SCHREINER, Thomas R. Romans. Grand Rapids: Baker Books, 1998.
Série: Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
STUHLMACHER, Peter. Paul’s Letter to the Romans: A Commentary.
Louisville: Westminster John Knox Press, 1994.
WRIGHT, N. T. The Climax of the Covenant: Christ and the Law in
Pauline Theology. Minneapolis: Fortress Press, 1992.
WRIGHT, N. T. Paul and the Faithfulness of God. Minneapolis:
Fortress Press, 2013.
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